Aos sambistas, mais um novo pedido final

20/06/2017 às 20h58  – Por Aurora Seles

Sambistas. Foto: Arte

A mitologia estuda os deuses e suas lendas de povos distantes, em seu tempo e espaço. Na grega Apolo (deus da luz, poesia e música), Afrodite (deusa do amor e da beleza). Na africana, Xangô (deus do fogo, rio e trovão) e Iemanjá (divindade do mar). Trago essas referências mitológicas para comentar a respeito do corte de verba, no Carnaval.

O homem, de modo singular, tem suas crenças, seus mitos, mas quando o assunto é voltado à massa, é necessário ter mais atenção. E o Carnaval é uma das maiores festas do Brasil que, além de gerar emprego, também contribui para o crescimento turístico. Nos últimos anos, em função da crise financeira, acompanhamos o desdobramento das escolas de samba por meio das economias criativas. A reciclagem foi um dos principais recursos.

Fato! A nação brasileira passa por um momento de dúvida – e histórico – em sua gestão política. Deve-se priorizar a educação e a saúde, pastas sempre esquecidas no comando dos parlamentares. Desta vez a cultura também entrou no rol. Sempre defendi o Carnaval como um evento que resgata parte da história em todos os continentes. E isso é uma maneira de informar, além de divertir. A ideia é acabar com tudo?

Acredito que estamos diante uma intolerância religiosa. E ao mesmo tempo, um desconhecimento de quem faz o Carnaval. Na própria Constituição Federal consta que estamos em um Estado laico, e essa democracia está presente nas escolas de samba. Evangélicos, católicos, candomblecistas, kardecistas, budistas e outras frentes religiosas. Todos estão lá, em um mesmo espaço.

E 1975, os compositores Edson Conceição (Salvador-BA) e Aloísio Silva (Rio de Janeiro-RJ), escreveram “Não deixe o samba morrer”. Essa obra foi gravada por Alcione e cantada por outros artistas, entre eles, Cássia Eller. Em 2002, pela gravadora Índie Records, Neguinho da Beija-Flor, Thobias da Vai-Vai e Eliana de Lima regravaram a composição no disco “Os melhores do ano III”. Vale recordar um pequeno trecho:

“Quando eu não puder pisar mais na avenida; Quando as minhas pernas não puderem aguentar; Levar meu corpo, junto com meu samba; O meu anel de bamba; Entrego a quem mereça usar… Antes de me despedir; Deixo ao sambista mais novo; O meu pedido final. Não deixe o samba morrer; Não deixe o samba acabar; O morro foi feito de samba; De Samba, pra gente sambar”.

Está na hora de os sambistas, todos, regravarem a canção e enviar como estudo (leia presente) para quem gosta de tirar a alegria do povo. Poderia ser um coral. Algo similar ao clip We Are The World (nós somos o mundo), canção idealizada e composta por Michael Jackson e Lionel Richie, em 1985, por 45 dos maiores nomes da música norte-americana, no projeto conhecido como USA for Africa. Aqui no Brasil chamaríamos de SOS Carnaval. Fica a ideia para os bambas.

 

 

O enredo que nasceu de uma conversa no semáforo

13/06/2017 às 18h23

Semáforo. Foto: Reprodução

Há oito anos, dirigia a caminho do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, para levar um carnavalesco que embarcaria à cidade maravilhosa. No percurso, enquanto aguardávamos em um semáforo, uma garotinha de nome Ingrid, vendedora de balas, e rosto empoeirado pela poluição da rua, ofereceu-nos o produto e perguntou o que fazíamos. No entendimento da doce menina, nosso trabalho era votado para realizar sonhos. A partir desse comentário, nasceu o tema de um grande trabalho. Era 2009.

Na contextualização do projeto, todos os trabalhadores viraram protagonistas. Foi um dos trabalhos inesquecíveis de minha carreira no Carnaval. Hoje relembrei muitas pessoas envolvidas com esse segmento. Desde o responsável pela abertura de um portão até o último ajuste em alguma alegoria – todos, sem exceção têm grande importância para o desenvolvimento de um desfile.

Além das quadras sociais, a maior demanda desses profissionais é encontrada nos barracões e ateliês, seja de costura, colagem ou pintura. Tive algumas oportunidades de ficar lado a lado deles para seguirmos uma prosa, com café e muitas gargalhadas. Serralheiros, ferreiros, aderecistas, costureiras, pintores, escultores, motoristas, cozinheiros, limpadores, porteiros, carregadores, marceneiros e todos os profissionais que atuam atrás das cortinas.

Todos são celebridades, de tamanha importância, tanto quanto àqueles que estão na linha de frente, ou sob os holofotes. Há um time considerável que contribui para o preparo de um espetáculo carnavalesco.

O povo está cada vez mais em evidência. Podemos conferir essa atuação nos últimos eventos políticos. Sim, a massa é capaz de mudar um cenário, seja para organizar uma festa ou uma história. O anonimato é relativo. Todos são protagonistas.

 

A música brasileira e seus variados ritmos

06/06/2017 às 9h46 – Por Aurora Seles

Dança . Foto: Arte

Os primeiros gêneros populares da música nacional foram a modinha e o lundu. A modinha se encarregava do aspecto romântico e o lundu traduzia o humor e a sensualidade. No lundu, havia claramente a influência rítmica da presença negra no Brasil. Até a chegada da polca era essa a nossa música popular.

Prestes a completar 172 anos, em território nacional, a polca é uma dança do século XIX, da República Tcheca, na região da Boêmia. Ficou famosa em nosso país, na época de 1858, com muitas danças criadas pela compositora Chiquinha Gonzaga. O ritmo foi interpretado pela primeira vez no Brasil na noite de 3 de julho de 1845, no palco do Teatro São Pedro, no Rio de Janeiro, e espalhou-se pelos salões da corte carioca.

Conforme as partituras de polcas chegavam, e em muitos casos caíram no gosto dos pianistas, responsáveis pela animação nas salas da classe média, os músicos passaram a desenvolver o mesmo modelo de dança. E com essa adaptação havia também o sotaque ligado à música portuguesa e um gingado, espalhado pelos escravos africanos em terras brasileiras.

Autores de teatro musicado e membros de grupos de choro cultivavam a dança e promoveram a fusão com outros gêneros de música popular como o fado, o tango e, ainda em polca carnavalesca. A compositora, pianista e maestrina brasileira Chiquinha Gonzaga (1847-1935), autora da primeira marcha carnavalesca “Ô abre-alas”, também passou a compor polcas e adaptou o som do piano ao gosto popular e, em 1877, fez a polca “Atraente”, grande sucesso.

Enquanto pesquisava a respeito, descobri que Pixinguinha afirmava: “Quando eu fiz o Carinhoso (por volta de 1916 ou 1917), era uma polca. Polca lenta. Naquele tempo, tudo era polca, qualquer que fosse o andamento”. Saudoso e querido.

E o ritmo polca fazia parte da dança de salão, realizada por casais em festas e reuniões sociais. O termo “dança de salão” foi criado porque os dançarinos precisavam de locais espaçosos, daí o estilo passou a ser valorizado e trazido para as Américas, África e Ásia, pelos colonizadores.

Entre o século XIX e XX, as danças populares do Brasil eram, além da polca, a valsa, a mazurca, a contradança, o xote e a quadrilha (posteriormente chamada de quadrilhas caipiras). Esta última é retratada no sexto mês do ano e ganhou o nome de festa junina, dançada principalmente, na região nordeste do Brasil.

A quadrilha era a principal dança nos bailes da corte. Depois ficou popular e alcançou as ruas e clubes. No nordeste, ganhou muitas cores, fogos de artifícios e comidas típicas. Essa dança envolve um grupo, relativamente grande, e o tema é um casamento. Durante a cerimônia os participantes cantam: Olha a chuva! É mentira, a ponte quebrou, nova ponte, caminho da roça, e por aí vai. Uma festa tradicional e que promove alegria, descontração e humor.

Essas terras tupiniquins, em meio ao caos atual, conseguem manter a tradição e o folclore. Não é à toa que somos conhecidos pelo perfil caloroso e humano. Desta maneira seguimos no ritmo do otimismo. Toque o fole sanfoneiro que os dias melhores hão de chegar.

 

 

A verdadeira primeira-dama está no samba

30/05/2017 às 16h59  – Por Aurora Seles

Dama. Foto: Ilustração

Comparo o momento político atual com uma operação “descida Imigrantes”. E isso significa um comboio pela estrada no caminho do litoral paulista, sob forte nevoeiro. Para que não haja acidentes é necessário um comando feito por um carro maior, iluminado e, principalmente, onde o condutor saiba o que deve ser feito. Leva um tempo, mas dá certo. Com esse olhar, divido, com você leitor, meu otimismo quanto ao nosso país.

Antes da próxima eleição, provavelmente, assistiremos a saída de mais um presidente. Observo a inquietação dos envolvidos, mas uma figura, em especial, chama-me a atenção: a primeira-dama.

Esse título, criado em 1850 por um ex-presidente americano, durante o funeral de sua mulher, passou a ser usado em várias esferas do poder.

As primeiras-damas costumam participar de cerimônias públicas e organizar ações sociais, e podem ajudar a transmitir uma imagem positiva de seus maridos à população. Infelizmente, nestes tempos, não temos essa figura no Brasil.

Mas a imagem de uma primeira-dama em nosso país não está enterrada! Nas escolas de samba ela existe, e resiste. Aprendi com o grande mestre-sala, Gabriel de Souza Martins, o mestre Gabi, que a primeira-dama de uma escola de samba é a porta-bandeira. A elegante mulher que tem a tarefa de levar o pavilhão, símbolo de maior importância das agremiações.

Em tempos onde as mudanças de hierarquias são constantes, no segmento Carnaval, a primeira-dama tem a vida mais longa. Muitas começam ainda meninas até chegarem ao primeiro posto. Nos desfiles, é sempre o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira o responsável pela nota do quesito avaliado. Logo depois, virão os segundos e terceiros casais. Há escolas com outros números e isso inclui os casais mirins.

A porta-bandeira desfila com elegância e galhardia. Sua apresentação é inconteste. Merece toda a reverência e respeito, até porque, essa primeira-dama tem o apoio da comunidade, diferente do que acontece nestes tempos tortuosos. Todas, sem exceção, são belas, encantadoras e de um lar, chamado escola de samba.

 

‘Parâmetro e seriedade’; o Candomblé nas escolas de samba
Em uma nação laica, igual ao Brasil, são inúmeras as religiões e, especialmente, no Carnaval, o Candomblé é predominante

23/05/2017 às 10h38 – Por Aurora Seles

O Candomblé nas escolas de samba. Foto: Reprodução

Antes da abolição da escravatura, o Candomblé já existia, mas tinha outro nome: batuque de negros, também chamado de batuque de roda ou roda de capoeira. Oriundas da África, as religiões habituais eram praticadas nas senzalas, ou, em lugares afastados no meio da mata. Em território nacional a história dessa religião é dividida conforme a distribuição dos escravizados pelos Estados.

Segundo algumas publicações, a primeira casa de Candomblé Bantu foi em Salvador, chamada de Raiz do Tumbensi – uma casa de Angola considerada como a mais antiga da Bahia, fundada por Roberto Barros Reis, (Tata Kimbanda Kinunga sua dijína) por volta de 1850. Com as batidas policiais nos terreiros e a perseguição e prisão dos adeptos e objetos de culto, algumas Iyalorixás (significado de mãe, em yorubá – idioma nígero-congolês. Ao longo do texto haverá outras traduções) resolveram migrar para outras cidades, em busca de tranquilidade para cultuar os Orixás.

Com o intuito de entender um pouco mais do assunto e sua influência nas escolas de samba, ouvi o Babalorixá Luisinho de Logun Edé – pai de santo há mais de 40 anos. Nascido em Castro Alves-BA, cidade de sua mãe biológica, e neto de uma africana. Veio para São Paulo com dois anos, terra onde foi iniciado, por volta de 1977, em um ilê (casa) construído com muito esforço por outro Babalorixá. Localizado na Zona Sul, no bairro Sete Lagos, a casa recebeu o nome de Ilê Uwaye Ketu Omorodé Lagos, ou Axé Lagos, para referenciar a trajetória de todos os Orixás. Desde que passou a ser responsável pelo local, Babá Luisinho (como é carinhosamente chamado) já iniciou muitos adeptos e yaos (filhos).

Primeiramente, ele destaca o imediatismo, com apreensão: “Hoje, as pessoas pesquisam e têm resultados na internet. Para o Candomblé tradicional – principalmente aos mais antigos – busca-se orientações na fé, nas palavras em yorubá. Mantivemos a doutrina e recebemos as respostas dos Orixás. São informações secretas e individuais, obtidas pela fé”. Para ele, essa trajetória é a mais importante. O Orixá existe e está presente na forma da natureza: árvores, folhas, águas, pedras.

Sobre os enredos africanos, onde são mencionados muitos Orixás nas escolas de samba, Babá Luisinho sempre fica feliz. E comenta que o assunto poderia ser trazido em todos os Carnavais. Mas, ressalta a necessidade do cuidado, e da permissão das casas matrizes, para falar do assunto. “Os orixás não estão ligados diretamente ao Carnaval, mas dentro do folclore, isso faz parte. O samba de roda nasceu quando os negros, após os afazeres, reuniam-se e batiam seus tambores e faziam seus sambas. Exemplo, a casa de Mãe Ciata*. Por isso, tudo tem de ter parâmetro e seriedade”, ensina.

Exemplifica quando, para pular o Carnaval, a pessoa usa uma fantasia que representa um Orixá. Precisa saber quem foi, afinal, Orixá foi – e é – vida. E recorda o desfile da escola de samba carioca, Mangueira, em 2016, com um tema que, para ele, era maravilhoso e mereceu o título. A porta-bandeira vestida de oyá (Iansã, orixá dos ventos e tempestades), e no carro abre-alas uma Iansã, para reverenciar o Orixá da cantora Maria Bethânia – a homenageada. Ali ficou evidenciado o estudo. Houve uma pesquisa bem feita. “Eparrey oyá” (cumprimento, com admiração) à Mangueira e que a escola sempre tenha bons ventos”, enfatiza Babá Luisinho.

Nesse instante, há um pássaro muito próximo de nossa conversa. O canto ecoa pelos ares. O entrevistado observa e sorri, afinal, ele é filho de Logun Edé (Orixá da riqueza e da fartura, algumas vezes acompanhado de pássaros). Continua nossa conversa e ele conta que tudo o que aprendeu foi por amor, com os mais velhos. Adupé (agradece)! E frisa a importância do agô ilê (licença para entrar em alguma casa). Cantarola. Ajô (festa), ibé (família, sociedade), tudo no idioma yorubá. No Brasil existem cursos, mas foram ajustados à gramática nacional. A linguagem tradicional é bem diferente, oriunda da África. Os afro-brasileiros adaptaram para o Brasil.

“Na busca de Olonan (senhor dos caminhos), layô (alegria), odara (bonito)”. A conquista desse caminho bonito, e de alegria, ocorreu desde quando ele era um yao. “Aqui cada pedaço de chão é uma África, porque foi aberta uma casa para Ogum, outra para Oxóssi e todos os Orixás estão em comunhão. Só é possível sentar-se em uma cadeira de sacerdote ou receber um título, com a aprovação do pai ou mãe de santo”, recorda.

Ainda há um olhar preconceituoso para as casas de santo. Babá Luisinho observa o combate à intolerância religiosa e lamenta a pouca divulgação na imprensa, além do olhar racista, mesmo que haja misturas de etnias. No Candomblé há coisas lindas e abrange todos os perfis.

Comento que o Candomblé é tido como uma das religiões mais caras. Ele informa que é possível tocar um ilê, puxando uma lona na areia. Não se exige o luxo, mas cada casa tem o seu cuidado, o seu capricho. Indaga: Qual é o luxo no Brasil? E responde que é a ordem. Salienta que os Orixás são lindos e ninguém jamais os convidaria a entrar em um rio sujo. A mesma coisa é sua casa e, em cada canto tem a energia dos Orixás. Ele se lembra das igrejas católicas que têm mármores e ouro. Pergunta: Os santos precisam de ouro? Essa preciosidade representa a fortaleza. O ouro reluz. Bastam observar os grandes capitães, os bacharéis e os cantores com objetos de ouro. Tudo para fortalecer. E finaliza: “Não pode ficar de pé, quem nunca se abaixou ao Orixá. E quem se abaixa, pode ficar em pé para ensinar. Por isso, sempre me abaixo aos pés do Orixá para buscar o que ele tem para me dar”.

*Uma cozinheira e mãe de santo brasileira, considerada por muitos como uma das figuras influentes para o surgimento do samba carioca. Também ficou marcada como uma das principais animadoras da cultura negra nas nascentes favelas cariocas. Em sua casa, onde os sambistas se reuniam, foi criado o primeiro samba gravado em disco – Pelo Telefone -, (composto por Donga e Mauro de Almeida).

 

Abraço à cidade maravilhosa
O Rio de Janeiro permanece lindo

16/05/2017 às 0h37  – Por Aurora Seles

Cristo Redentor. Foto: Reprodução

 

Durante dez anos foi a primeira vez que visitei a cidade em busca de entretenimento, ao invés de trabalhar para o Carnaval. Cheguei à data em que ocorria mais um clássico “Fla-Flu”, no Maracanã, com resultado de 2X1 para o rubro-negro. No mesmo dia, a quadra do Salgueiro, em Andaraí, velava o corpo do sambista e compositor Almir Guineto, um dos maiores representantes do samba de raiz, além de fundador do grupo Fundo de Quintal. O domingo era de aplausos, nos dois sentidos.

À noite, no teatro Carlos Gomes, era exibido o musical Cartola – o mundo é um moinho. Na plateia, a presença da dama do teatro, Fernanda Montenegro, que, ao final, entonou palavras de motivação ao elenco e ao público, em meio à crise que se estende pelo país: “Isso é um dos maiores exemplos de brasilidade”. Em meu assento, as lágrimas teimavam em cair. Fernanda é, sem dúvida, um diamante de nossa cultura.

Na segunda-feira, conferi o Samba do Trabalhador, no Clube Renascença (Andaraí), sob o comando do sambista Moacyr Luz. A casa é um dos endereços frequentados por bambas, com gente bonita e talentosa. Logo depois, perto da Cidade do Samba e da Gamboa, fui ao Samba da Pedra do Sal – em referência à importância para a cultura negra carioca e aos amantes do samba e do choro. A região também é considerada como o núcleo simbólico da Pequena África, no passado, repleta de casas coletivas, ocupadas por escravizados. Nomes marcantes, como Donga, João da Baiana, Pixinguinha e Heitor dos Prazeres frequentavam a Pedra do Sal. Pelo acesso dos degraus escavados na pedra, chega-se ao Morro da Conceição, local de importância histórica e arquitetônica.

Famosa por seus ladrilhos, Copacabana é uma das áreas, na Zona Sul, mais procuradas. E o número de imigrantes despertou minha atenção. De um lado, europeus e americanos curtiam a paisagem, e de outro, argentinos e haitianos dividiam o espaço para atrair a clientela. O comércio incluía alimentos e acessórios. A “Princesinha do Mar” é um grande ponto de encontro étnico.

Em coro, a população local clama por segurança. Vivenciei alguns momentos intrigantes. Ao solicitar um serviço de transporte particular, compartilhado, o motorista “cortou” caminho por áreas de risco, em que o próprio aplicativo sinalizava. Em outra corrida, assim que desci do carro, ouvi disparos. Dentro de uma estação de metrô, correria. A polícia fora chamada – era à tarde, cerca de 17 horas – para socorrer vítimas de assalto. Passei a usar o serviço individual, dos carros particulares. Ainda assim, quis experimentar uma viagem de VLT – veículo leve sobre trilhos.

O passeio tinha como destino a Praça Mauá, na zona portuária carioca. No interior do VLT, temperatura e acomodação agradáveis. E o veículo deslizava, pelos trilhos. Olhava tudo, feito criança. Era novidade. Ao desembarcar, uma paisagem linda do porto até chegar ao Museu do Amanhã, que atualmente está com a exposição “Inovanças – Criações à Brasileira”. Outro impacto. O prédio, inaugurado há menos de dois anos, tem cerca de 30 mil m2 e usa recursos naturais para os espelhos d’agua. Os jardins são lindos também. Tudo sob a assinatura do arquiteto espanhol Santiago Calatrava. Acredito, sem pretensão, que entendi o recado. A mensagem é clara quanto aos cuidados que devemos ter com nosso meio ambiente, em função dos perigos das mudanças climáticas. Caminhamos, velozmente, para uma degradação ambiental e isso, leva-nos à falência social.

E por falar em sociedade, assisti ao espetáculo na Cinelândia, centro da cidade carioca. O evento, organizado por artistas do Theatro Municipal, protestava contra o atraso de salários há mais de dos meses. No concerto teve a participação do coro, orquestra, balé e outros servidores. Da execução do Hino Nacional Brasileiro ao último ao, vi muitas pessoas emocionadas. Um paradoxo. Apresentação linda e triste.

À luz do dia, e à noite, olhava para o Corcovado. O Cristo Redentor, de braços abertos, sempre me lembrava da canção de Gilberto Gil, feita em 1969, no período de seu exílio, em Londres, na Inglaterra. “Aquele Abraço” sinalizava os anos de chumbo da ditadura. A melodia, também famosa na voz de Tim Maia, trouxe certo conforto para meu olhar. Da janela, suspirei. Veio a catarse. Os braços abertos do Cristo hão de mudar o cenário atual do Rio de Janeiro e de todo o povo brasileiro. Para mim, e para você, aquele abraço!

 

Ziriguidum: Vc tb c comunica assim?

A linguagem começa com uma respiração

09/05/2017 às 7h19 – Por Aurora Seles

Teclado. Foto: Reprodução

Noto que muitas pessoas não querem se dar ao trabalho para fazer um esforço pelo semelhante. Simplesmente, ignoram. Há muito tempo inúmeros cidadãos buscam a construção de sua identidade, pela maneira como eles tentam se entender, e a situação “precisa” de um esforço da parte dos outros.

Quando a reciprocidade inexiste, essas pessoas ficam fadadas a pequenos grupos, o que ocorre nas comunidades LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), de diferentes tipos de orientações sexuais. E no segmento Carnaval, onde a população masculina, ainda, é predominante, a comunicação escrita começou a mudar. Por esse pequeno detalhe, pesquisei, ouvi e conversei com algumas fontes. Virou um “textão”. Risos!

Os especialistas não sabem precisamente quando surgiram os idiomas, mas um ponto é certo: a língua é viva e reinventa-se com as pessoas. Ah, claro! Temos de considerar as alterações que são determinadas por lei, como é o caso do Novo Acordo Ortográfico, obrigatório desde o dia 1º de janeiro de 2016, com o objetivo de unificar o nosso escrita às demais nações de língua portuguesa: Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

As variações ocorrem nas origens socioeconômicas, idades, nível de escolaridade, nas ruas, nos sermões, nas palestras, nos discursos, nas idades e nos gêneros. E as mudanças também acontecem na escrita. Estima-se que existam mais de 300 mil palavras na Língua Portuguesa, mas o Aurélio traz 160 mil verbetes, e o Houaiss, 228 mil. No dia a dia, porém, utilizam-se de 1,5 mil a 3 mil deles. A expectativa é que um estudante do ensino fundamental (1ª a 4ª série) conheça cerca de mil palavras.

Cada grupo social é capaz de modificar o falar e o escrever, principalmente quando se trata da população mais jovem, considerada disparadora das mudanças. Estudiosos afirmam que faz parte do papel da juventude se distinguir, quebrar padrões e testar novidades. E isso pode ser conferido na criatividade dos termos utilizados na internet, o chamado “internetês”. Palavras escritas de outras maneiras, como tb, vc, eh e naum (no lugar de também, você, é e não). E, com as gerações, muda a língua, que não para de se recriar.

Tudo isso é dinâmico – e divertido. Aprendo com estudantes, de faixas etárias distintas, muitos termos que contribuem para a fluidez da comunicação. E tenho lido por aí, o uso frequente para neutralizar o tratamento dos gêneros. Mensagens como “Todxs xs convidadxs”, para não distinguir homem ou mulher, usa-se a consoante x. Também vejo o uso do @, algo como “Bom dia amig@s”. Esses recursos aparecem principalmente dentro dos movimentos sociais.

Acredito que a ideia seja positiva para promover a inclusão, mas não devemos ignorar um público específico. Refiro-me aos cegos que utilizam ferramentas de leitura de tela, e podem ter dificuldade de compreender palavras como “todxs” ou “amig@s”. Programas como o NVDA e o Virtual Vision, feitos com o intuito de traduzir para áudio o que está escrito no celular e no computador, não leem corretamente as palavras e emitem sons confusos ao tentarem decifrar o “x” e o “@”. O propósito da linguagem neutra e inclusiva pode ser um desserviço.

Conversei com um amigo jornalista, Renato Barbato, e ele afirma que a leitura feita pela voz sintetizada fica muito comprometida com esses “cacos” (x e @). Também aponta o comportamento individualista, pela falta de diálogo, entre os vários entes transformadores ou formadores de opinião. Barbato perdeu a visão no início de 2006. Atuava como arquiteto e urbanista, em projetos e gerenciamento de lojas de shopping e escritórios. Tinha de ter atenção meticulosa para a infinidade de cálculos e, desde então, reorganizou-se profissionalmente.

Ele é jornalista, locutor e apresentador. A comunicação é inerente às atividades diárias, por isso, questiona: “Se o Acordo Ortográfico foi assinado para unificar a língua portuguesa, como já se cria verbetes que certamente não serão usados em outros países?”. Precavido, ele acredita que o leitor pode ser programado para começar a fazer a leitura correta dessas palavras, mas não será uma palavra unificada e os usuários terão de fazer seus próprios ajustes.

Consultei também o jornalista, professor e artista Weber Fonseca. Para ele, a questão primordial é que a escrita procura neutralizar os gêneros e essas tentativas ocorre em várias línguas. Fonseca cita uma afirmação da filosofa espanhola Beatriz Preciado: “Não se trata de substituir alguns termos por outros. Não se trata tampouco de desfazer das marcas de gênero ou das referências à heterossexualidade, mas sim de modificar as posições de enunciação”.

Ah, aprendi que existe o PCIG (Português com inclusão de gênero), usado para adotar a forma de não se determinar o gênero masculino ou feminino, pensando na estratégia para o tratamento de indivíduos não-binários com fluidez de gênero. Daí usa-se a vogal “e”: meninEs, amiguEs.

O assunto é complexo e tem muita informação a respeito. Vale a dica de usar uma linguagem simples e direta para que a comunicação seja objetiva. A ideia de conversar, com termos neutros, também é interessante. Experimente. Basta praticar. Veja alguns exemplos:

– Ela saiu. Logo, A pessoa saiu; alguém saiu.
– A casa dela. Então, A casa do indivíduo; da pessoa. A casa de alguém.
– Bom dia a todas. Pode ser assim: Bom dia a todas as pessoas. Bom dia a vocês.
– Como sambista, ela fez muito sucesso. Sugestão: Sambando, fez muito sucesso.
– Essa fantasia é da Souza. Experimente falar/escrever: Essa fantasia é de Souza.
– Os ritmistas da Bateria X são ótimos. Que tal: Ritmistas da Bateria X são ótimos.
– Você fica muito cansada após o desfile? Mais uma opção: Você se cansa após o desfile?

Entender as mudanças na linguagem oral e escrita é perceber o quanto o idioma está em movimento. Nossa comunicação começa por um sopro e a cada movimento da boca surge uma infinidade de letrinhas, todas juntas, formadas por vogais, consoantes, sílabas e, finalmente, as palavras. E tudo resultou nesse artigo para que você troque mais ideias, na cadência do samba, e na comunicação moderna. Ziriguidum!

 

Assim como no Carnaval: resistir, criar e renovar

Aplausos à democracia

02/05/2017 às 17h08 – Por Aurora Seles

Criar. Foto: Arte

Labutar. Verbo intransitivo que significa lutar, lidar e trabalhar. Empenhar-se, de um modo geral, seja por trabalho formal, autônomo ou voluntário.

O quadro atual nos deixa em alerta. São mais de 13 milhões de desempregados em um país que resiste, cria e renova, na vida, assim como no Carnaval.

Frequentemente, ouço que “vivemos em um país sem memória”. Vale recapitular. No período de abril de 1964 a março de 1985, o Brasil viveu sob a ditadura militar, e essa época ficou marcada na história nacional por meio de atos institucionais que colocavam em prática a censura em todos os meios de comunicação. A perseguição política, a eliminação de direitos constitucionais, a tortura, o exílio de dissidentes, a falta total de democracia e a repressão àqueles que eram contrários ao regime, faziam parte do cotidiano.

A ditadura atingiu o alto de sua popularidade na década de setenta, com o “milagre econômico”. Por volta de 1980, o regime entrou em decadência quando o governo não conseguiu mais estimular a economia, controlar a inflação e os níveis crescentes de concentração de renda e pobreza, frutos do projeto econômico, e isso deu impulso ao movimento pró-democracia.

Foram anos amargos, insalubres. Fecho os olhos para recordar e me vem à mente a “Canção do Sal”, composta em 1966, por Milton Nascimento: “Trabalhando o sal / É amor, o suor que me sai / Vou viver cantando / O dia tão quente que faz…Trabalho o dia inteiro / Pra vida de gente levar… Encontrar a família a sorrir / Filho vir da escola / Problema maior de estudar / Que é pra não ter meu trabalho / E vida de gente levar”.

Faz mais de 30 anos que a ditadura acabou. A grafia em letra minúscula não diminui a inquietação. Tenho a impressão de um déjà-vu. Uma sensação de que já vi a esse filme. Olhos abertos. O gosto de fel foi substituído pela doçura de viver. Estamos em uma terra livre. Bora trabalhar e construir.

 

 

Não é à toa que o Brasil nasceu no mês do santo das causas difíceis…

25/04/2017 às 10h19 – Por Aurora Seles

Santo Expedito. Foto: Reprodução

O mês de abril possui datas comemorativas em todos os seus 30 dias.

Destaco quatro homenagens: 19 – Índio e Santo Expedito, 22 – Brasil e 23 – São Jorge.  A nação brasileira completou 517 anos e é a maior da América do Sul. Alcançamos 200 milhões de habitantes e ainda estamos em construção.

Brinco que o Brasil é um continente, com vários países, tamanha a variação de imigrantes e culturas. E todos, lamentavelmente, aprendem a nossa história de maneira indevida. Os primeiros habitantes foram os índios, mas as caravelas portuguesas receberam o título de “descobridores”.

Um dos fatores mais marcantes é a abolição da escravatura, em 1888. Ou seja, a população negra foi escravizada durante 388 anos. Basta calcular que há apenas 128 anos ocorreu essa libertação. Aqui cabe uma pergunta: quem construiu as ferrovias, igrejas e demais patrimônios? Falamos pouco das etnias, mas com você, caro leitor, divido a importância dos índios e negros em nosso berço esplêndido.

Atualmente estamos no período da lavadeira (ou jacinta), também conhecida como libélula. Este inseto vive um longo ciclo de 17 metamorfoses, que pode durar até cinco anos e, finalmente, ele voará. Sob esse olhar ingênuo classifico nosso país, pois, quero acreditar que a avalanche, a qual passamos, terá um final positivo.

O cenário político não promove apenas um debate financeiro, mas sim ético. Esta palavra define o que é caráter, bons costumes e valores morais. Por isso, relembrei quando a história começou. A limpeza, ou, a necessidade de um lava a jato, é complexa.

Pertencer a uma nação laica leva-nos a agir com confiança e otimismo para o futuro. Não é à toa que o Brasil nasceu no mês do santo das causas difíceis (Vós que sois um santo guerreiro. Vós que sois o santo dos aflitos. Vós que sois o santo dos desesperados. Vós que sois o santo das causas urgentes, protegei-me. Ajudai-me. Dai-me força, coragem e serenidade) e de um grande guerreiro, Ogum (Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar). Salve Santo Expedito e São Jorge!

Sim! A crença, independente da religião, é um fator presente nos 27 estados do Brasil. Esta terra embrionária, ainda rica de fauna e flora, com seu povo aguerrido e acolhedor, vai seguir e atualizar a história, por meio de suas raízes e verdades. Tenho fé!

 

 

Um mundo de paz, de Luz e de fé

Linhas para um mundo melhor

 

18/04/2017 às 15h45 – Por Aurora Seles

Foto: Reprodução

Finda a quaresma, atrevo-me a dizer, sob uma rápida análise, que o nordeste brasileiro e o continente africano foram ricamente homenageados por escolas de samba de São Paulo. A Acadêmicos do Tatuapé levou o troféu pelo tema “Mãe-África conta a sua história: Do berço sagrado da humanidade à terra abençoada do grande Zimbawe”. Em segundo lugar, uma das agremiações mais novas do Carnaval, a Dragões da Real, apresentou “Dragões canta Asa Branca”.

Ambas desfilaram enredos de localizações que possuem ricos traços culturais. Os ritmos xaxado, samba de roda, baião, xote, forró, axé e o frevo destacam-se na música popular nordestina.

A África é um continente de grande diversidade cultural que se vê fortemente ligada à cultura do Brasil. Sua influência na formação do povo nacional é vista em alguns costumes como: a capoeira, o candomblé e a culinária.

Adoraria retornar a esta coluna apenas para falar de festa, do Carnaval e de eventos que alegram a população. Mas não posso ignorar um fato recente que tem ocupado todos os noticiários. Refiro-me à adolescente Maria Eduarda, de apenas 13 anos, morta no interior de uma escola municipal, no último dia 30 de março, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

A linda menina, que gostava de fazer selfies, também sonhava em ser jogadora de basquete.

O mundo da docência é ímpar. Afirmo que a relação aluno-professor, professor-aluno é um portal de possibilidades e aprendizados. Nós, professores, cultivamos esse convívio e não nos atentamos aos muros. Queremos cada vez mais que as escolas fiquem abertas para que todas as faixas etárias, classes sociais e gêneros, sejam cúmplices de novos conhecimentos.

Esse seria um mundo ideal, mas Maria Eduarda foi atingida por um projétil. Ela estava “guardada” por largas paredes que não a protegeram.

A instituição onde a menina estudava tem um nome da literatura braseira – Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza. O jovem jornalista faleceu na antevéspera de 2012, aos 41 anos. Era paulista. Foi autor de 17 livros entre crônicas, ficções, análises literárias, ensaios históricos e infantis. Trabalhou em grandes veículos de comunicação, cobrindo, especialmente, a área cultural. Sua obra infantil é “Mundois”, onde noite e dia, homem e mulher, esquerdo e direito trazem para a criança a compreensão de que o mundo é formado pelo equilíbrio de forças que se contrapõem ou se complementam.

Um livro escrito há 16 anos. Maria Eduarda ainda não havia nascido e, um homem que deu nome à escola onde ela virou Luz, apresentou por linhas literárias que “os caminhos de cada um devem ser seguidos de acordo com a consciência”.

Resta-me escrever para que eles descansem em paz! E do lado de cá, sigo, convicta e ainda com fé de que haverá dias brilhantes, sem sangue, sem dor.

 

 

Carnaval 2017: sinta a cadência do samba com as mãos

06/02/2017 às 15h59 – Por Aurora Seles

Foto: Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência

A profissão de jornalista nos leva a conhecer horizontes, ampliar o pensamento, falar, ver e sobretudo ouvir. São inúmeros seminários, palestras, debates e discussões que reúnem comunicadores para olhar o mundo e suas nuances. Há três meses estive em um congresso, ao lado de uma amiga, também jornalista, Ivone Rocha, que promoveu mesas redondas com o tema: “Estudos sobre a Deficiência”. Oportunidade onde conhecemos um pouco da vivência dos participantes e dos gestores de Comunicação pelo Direito de Expressão.

Aprendemos, dentre tantas informações, que existe uma série de nomenclaturas ultrapassadas: “paralítico, especial, deficiente, portador de deficiência e de necessidades especiais”. Os termos aceitos são “cego, surdo, cadeirante (informal) e pessoa com deficiência”. É importante usar as preposições.

Segundo a Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: “Pessoas com deficiência são, antes de tudo, pessoas. Pessoas como quaisquer outras, com protagonismos, peculiaridades, contradições e singularidades. Pessoas que lutam por seus direitos, que valorizam o respeito pela dignidade, pela autonomia individual, pela plena e efetiva participação e inclusão na sociedade e pela igualdade de oportunidades, evidenciando, portanto, que a deficiência é apenas mais uma característica da condição humana”.

Foto: Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência

Frequentemente comento nos grupos de trabalho ou pessoais, o quanto não tratamos do assunto quando não há uma pessoa com deficiência entre nós. Claro que a docência contribuiu para que minha ótica fosse mais ampla a respeito do assunto. Tanto é que durante uma assessoria de Carnaval, presenciei um grupo de cegos para ouvir a bateria de uma escola de samba. O intuito da visita era o preparo para o julgamento do quesito em agremiações menores. Foi incrível participar daquele momento.

Faz menos de duas semanas que conheci Mônica Mantecón, profissional que atua na Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED). Conversamos e trocamos mensagens sobre o projeto “Samba com as Mãos”, criado em 2016, para incluir surdos e pessoas com deficiência auditiva no Carnaval de São Paulo.

Enquanto eles viam, do camarote, o colorido na passarela do samba e a movimentação dos foliões, as letras dos sambas de enredo ficavam disponíveis nos televisores instalados no mesmo ambiente, além da acessibilidade, havia intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) que descreviam as letras. O grupo visitou quadras das escolas de samba, traduziu os sambas e fez vistorias técnicas ao sambódromo.

E este ano tem mais. As 14 agremiações do Grupo Especial tiveram seus sambas de enredo traduzidos pela equipe da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, que coordena o projeto “Samba com as Mãos”.

Caro leitor, reflita sobre essa questão: nas redes sociais, quantas vezes nos atentamos a descrição da imagem? O que é isso? Trata-se de uma narrativa detalhada da imagem para que os cegos consigam saber o que tem retratado na foto, ou na ilustração. É a famosa #PraCegoVer, lançada pela deputada Mara Gabrili. Ao usarmos uma simples legenda: “Mundo lindo”. [Sic].

Quantos cegos entendem que esse texto retrata o internauta sorridente, na praia, com um sol brilhante, ao lado de amigos e tais? A era digital é muito bacana e possibilita conhecermos e reencontrarmos uma infinidade de pessoas. Sugiro olharmos com mais humanização para outros perfis. A ideia aqui não era fazer um “textão”, mas despertar a inclusão social dentro de cada leitor. Para mim, não é um aspecto elegante, e sim obrigação de todos os cidadãos. Durante e depois do Carnaval observe com mais atenção às pessoas com deficiência. Elas brindam à vida!

 

Sabores da folia…

26/01/2017 às 15h57 – Por Aurora Seles

Banquete. Foto: Reprodução

Desde criança ouço que o coração de uma casa é a cozinha. Trago lembranças afetivas desse aprendizado. Filha de uma família mineira, a fartura era o carro chefe de minha casa. Claro que houve momentos precários, mas a sabedoria de mamãe sempre criava um prato saboroso. O costume enraizado ofereceu encontros e decisões.

Lembro quando tive a primeira reunião de trabalho com a Sociedade Rosas de Ouro. A mesa havia acabado de ser posta pelos queridos Madalena e Pedrinho. Era o momento em que a diretoria almoçava. Convidada a acompanhá-los, conversamos sobre a ideia de cuidar da comunicação da escola. Foram anos deliciosos, assim como a vitória conquistada por meio do enredo “O cacau é show”.

No primeiro ensaio geral deste ano, em 15 de janeiro, encontrei Angelina Basilio, presidente da azul e rosa. A conversa foi nostálgica. Quando saíamos para descontrair, na capital da gastronomia, tornamo-nos clientes assíduas de um restaurante japonês na Liberdade, ou, em uma hamburgueria na região Norte da metrópole. Ah! Também vale registrar os cafés da tarde na casa de Angelina, servidos em xícaras com formato de coração.

A escola defenderá o enredo “Convivium – sente-se à mesa e saboreie”, tema sobre os banquetes históricos. E a presidente, de família italiana, recorda: “Lembro-me dos ensinamentos de minhas avós. Elas sempre estimulavam que as refeições fossem realizadas à mesa. E a conversa fluía”, relembra.

De um jantar requintado aos fast foods, São Paulo que acaba de completar 463 anos, é a cidade onde predomina a união de sabores. O enredo desperta um dos cinco sentidos que norteiam nossa percepção no ambiente: visão, audição, paladar, olfato e tato. O organismo humano é capaz de identificar um alimento pelo sabor e distinguir as sensações de doce, salgado, azedo e amargo.

Os sentidos nos informam, de diversas maneiras, sobre o que ocorre a nossa volta. Podemos ver, ouvir e sentir sabores. Podemos sentir a textura e a temperatura das coisas que tocamos, assim como o olfato que norteia os odores. Componha a mesa e acompanhe a Rosas!

 

Primeiro fim de semana dos ensaios gerais

18/01/2017 às 15h52 – Por Aurora Seles

Ensaio técnico 2017. Foto: SRzd – Cláudio L. Costa

Com o intuito de assistir aos desfiles técnicos, fui ao sambódromo Anhembi, na noite do sábado, 15 de janeiro. Levei mais de 1h30 para estacionar no espaço designado aos foliões, dentro da passarela do samba. Havia excesso de pedestres e carros. Dois agentes de tráfego tentavam organizar o contingente. Nas cabines de imprensa, os banheiros estavam trancados e, na pista, as cadeiras e mesas plásticas foram removidas. Acredito que, com a nova gestão política, a passarela do samba esteja prestes a uma reforma. Apenas não entendi porque foi aberta ao público em condições primárias.

Revi baluartes, personalidades, sambistas e muita gente feliz. Foram quatro agremiações que desfilaram com seus componentes. A priori, todos estarão presentes no desfile oficial. A ideia desse evento é observar e corrigir tecnicamente os quesitos julgados, em especial, evolução, harmonia, bateria e o tempo.

Após um ano duvidoso, em que a maioria dos cidadãos mostrou a preocupação com a crise econômica e política, também conferi um pouco do lado genuíno do brasileiro. A alegria e a satisfação em celebrar, sorrir e cantar. Os sambistas são criativos e dedicados ao Carnaval. A emoção é tamanha e a maioria procura esquecer as adversidades para curtir a festa. Afinal, serão alguns momentos de descontração. E precisamos disso!

Ao encontrar Mauricio Pina, um dos destaques mais queridos do Carnaval, conversamos rapidamente sobre as bodas de pérola que ele comemora esse ano – e desfilará em São Paulo na Rosas de Ouro e Mocidade Alegre; e no Rio, na Acadêmicos do Salgueiro. São 30 anos de história dentro das passarelas do samba.

Afeição, capricho e gentileza são três características de Pina. Em qualquer lugar ele é solícito e gentil. E desta maneira o encontrei no sambódromo, após participar de um ensaio técnico. Diretor criativo de uma das maiores redes de salão de beleza, o hairstylist é patriota nato. Embora tenha estudado em solo internacional, ele reitera que tudo começou no Brasil. Sua paixão pelo Carnaval o leva produzir os figurinos e, recentemente, comentou durante uma entrevista:

“Serão três momentos importantes e comemorarei os 30 anos dividindo uma escola para cada década”. Ele merece. Vivencio esses bastidores e, sem dúvida, comprovo que o segmento é complexo. São dias inteiros voltados para o evento. Vamos conferir os desfiles – técnicos e oficiais – e aplaudir todas as agremiações pelo trabalho anual. Bora para a apoteose!

 

Precisamos e merecemos um novo ano – venha 2017

30/12/2016 às 11h38 – Por Aurora Seles

Bem-vindo. Foto: Arte

Vem aí um novo capítulo! Daqui a poucas horas estaremos no novo ano. Em 2016 o Brasil registrou muitos acontecimentos, da euforia dos jogos olímpicos na cidade maravilhosa, à tragédia com a Chapecoense.

Em todos os segmentos a emoção foi predominante. Houve casos efêmeros, mas a maioria marcada por grande impacto e repercussão social. Em menos de um semestre, por exemplo, vimos a queda de três expoentes da política nacional: a presidente da nação, o presidente da Câmara e presidente do Senado. Ops, este último reassumiu a cadeira… Segundo Freud, lapsos são expressões de desejos. Inevitável essa ironia…

Em meio ao turbilhão de fatos – inclusive internacionais – aproveito o espaço e convido você, leitor, a se preparar para um dos maiores eventos do nosso país, o Carnaval. Em São Paulo, as 14 agremiações do Grupo Especial retratarão os mais variados temas. O melhor amigo do homem; um ícone da Bahia; os banquetes; uma das principais letras composta pelo rei do Baião; a cultura urbana; a cidade das luzes – que por sinal esteve presente na mídia o ano inteiro, em função das denúncias políticas; a paz; a metrópole, responsável pela economia nacional e conhecida como a terra do trabalho; a capital da Bahia de todos os santos; o continente Africano; os Josés; Elba Ramalho; bodas de ouro e a padroeira do Brasil.

Vamos brincar essa festa e explorar suas cores e sua alegria. Da tradição à diversidade, tudo em prol da cultura e da união de todos. Precisamos e merecemos um novo ano. Aplausos a 2017. Seja bem-vindo!

 

 

Em 2017, Vai-Vai transformará a Avenida em terreiro

17/11/2016 às 15h45 – Por Aurora Seles

Mãe de santo. Foto: Reprodução

Macumba!

Esse termo é uma variação genérica atribuída aos cultos afro-brasileiros combinados com influências da religião católica, do ocultismo, de cultos ameríndios e do espiritismo.

Na “árvore genealógica” das religiões afro-brasileiras, a macumba é uma ramificação do Candomblé. A prática da macumba é erroneamente associada com rituais satânicos ou de magia negra. Esta ideia preconceituosa surgiu e se intensificou em meados da década de 1920, quando as igrejas cristãs do país começaram a propagar discursos negativos sobre a macumba, considerando-a profana às leis de Deus. A designação “macumba” é mais popular no Rio de Janeiro, em outros locais do Brasil é conhecida como Candomblé (na Bahia) e Xangô (no Recife).

A introdução é o trampolim para falar de Candomblé – religião animista, original da Nigéria e República de Benin, trazida ao Brasil por africanos escravizados e aqui estabelecida, onde sacerdotes e simpatizantes encenam, em cerimônias públicas e privadas, uma convivência com as forças da natureza e ancestrais. Os seguidores do Candomblé prestam cultos e adoram os Orixás – deuses africanos que representam as forças da natureza em seus quatro elementos: água, terra, fogo e ar. As características individuais dos Orixás assemelham-se aos seres humanos, identificadas pelas emoções. Estudiosos afirmam que são cerca de 400 Orixás, divididos igualmente para cada elemento da natureza. Os mais conhecidos somam 16, em ordem alfabética, são eles: Exu, Iemanjá, Iansã, Ibeji, Iroko, Logunedé, Nanã, Obá, Ogum, Olorum, Ossain, Oxalá, Oxóssi, Oxum, Oxumaré e Xangô. Esses deuses africanos são considerados intermediários entre os homens e Deus.

Parte do que foi descrito acima estará representada no Sambódromo paulistano pela tradicional escola de samba Vai-Vai. Há menos de duas semanas conferi a apresentação dos pilotos, ao lado do carnavalesco Alexandre Louzada e ele confirmou: “A ideia é desenhar um terreiro na Avenida”. A fala é confirmada em um trecho da sinopse da escola.

Mãe Menininha. Foto: Reprodução

Abra a roda e faça um terreiro em pleno palco do Anhembi, onde a nossa fé se manifesta e onde a Vai-Vai faz a festa – é o Xirê das divindades no esplendor de sua beleza, com a força da Mãe Natureza, o Gantois hoje é aqui!

Ao lado do renomado Louzada estão André Marins e Junior Schall, que assinam o enredo: “No Xirê do Anhembi, a Oxum mais bonita surgiu… Menininha, mãe da Bahia, Ialorixá do Brasil”. A homenagem é voltada para um dos maiores ícones do Candomblé brasileiro, Mãe Menininha do Gantois. Com o nome de batismo Maria Escolástica da Conceição Nazaré (10-2-1894 a 13-8-1986), essa grande mulher baiana foi uma Iyálorixá (mãe de santo), filha de Oxum.

Filha de descendente de escravos africanos, ainda criança foi escolhida para ser Iyálorixá do terreiro Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, fundado em 1849 por sua bisavó.

Maria Júlia da Conceição Nazaré, cujos pais eram originários de Agbeokuta, sudoeste da Nigéria. Mãe Menininha foi iniciada no culto dos Orixás aos 8 anos de idade por sua tia-avó e madrinha de batismo, Pulchéria Maria da Conceição (Mãe Pulchéria), chamada Kekerê – em referência à sua posição hierárquica, Iyá kekerê (Mãe pequena). Menininha seria sua sucessora na função de Iyalorixá do Gantois. Em 1922, através do jogo de búzios, os Orixás Oxóssi, Xangô, Oxum e Obaluaiyê confirmaram a escolha de Menininha, então com 28 anos. Em 18 de fevereiro daquele ano, ela assume definitivamente o terreiro.

Mãe Menininha abriu as portas do Gantois aos brancos e católicos – uma abertura que, em muitos terreiros, ainda é vista com certo estranhamento. Nunca deixou de assistir à missa e até convenceu os bispos da Bahia a permitir a entrada nas igrejas de mulheres, inclusive ela, vestidas com as roupas tradicionais do Candomblé. Aos 29 anos, Menininha casou-se com o advogado Álvaro MacDowell de Oliveira, descendente de escoceses. Com ele teve duas filhas, Cleusa e Carmem.

O terreiro está localizado na rua Mãe Menininha do Gantois (antiga rua da Boa Vista, renomeada em 1986), no Alto do Gantois, bairro da Federação, em Salvador. Após a sua morte, seus filhos deixaram seu quarto intacto, com seus objetos de uso pessoal e ritualísticos. O aposento foi transformado no Memorial Mãe Menininha e é uma das grandes atrações do Gantois.

Tudo isso é somado ao reconhecimento da história vivida nos terreiros, e fez com que o Estado Nacional concedesse ao Gantois o título de Patrimônio Nacional, formalizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan). Sem dúvida, os costumes africanos são confirmados por meio das músicas, danças, comidas, histórias, indumentárias e da cultura dos Orixás. Mais do que uma festa. É uma função social.

 

Concurso elege rainha do Bixiga

09/11/2016 às 19h18 – Por Aurora Seles

Concurso Rainha do Bixiga. Foto: Centro de Memória do Bixiga

No dia 1 de outubro o bairro do Bixiga completou 137 anos de história, e dentro do calendário de comemorações, na noite do último dia 27, estive na mesa de jurados para participar do concurso “Rainha do Bixiga”.

Sob os cuidados de uma comissão organizadora, presidida por Niltes Lopes, ao lado de Solange e Thaís Taverna, Nádia Ilvana, Sumaya Távora e Mauricinho, do bloco Esfarrapado. A idealização ficou por conta do senhor Walter Taverna*, um comerciante de 82 anos que fundou a Sociedade de Defesa das Tradições e Progresso da Bela Vista, sociedade sem fins lucrativos que luta pela preservação do patrimônio histórico, arquitetônico e cultural da Bela Vista – Bixiga.

A noite contou com a apresentação do grupo “Notas de Ouro D’Achiropita” e da Velha Guarda Musical da Vai-Vai. “A ideia do concurso teve como principal objetivo mostrar a união do bairro”, comentou Niltes. Com a coreografia de Karol de Moraes foram 11 candidatas avaliadas com notas de 7 a 10 nos quesitos espontaneidade, carisma, comunicação, simpatia, elegância, postura e desenvoltura, que resultaram na seguinte classificação final:

– Rainha e Miss Simpatia: Amanda Espírito Santo de Siqueira, 27, formada em Publicidade e Propaganda e mais votada pelos internautas;
– Primeira Princesa: Aline Ertogrel, 29, bacharel em Ciências Contábeis;
– Segunda Princesa: Kelly Barbosa, 29, modelo;
– Em quarto lugar, a Musa do Bixiga: Camila Souza, 25, estudante de Ciências Contábeis.

*Segundo a Wikipedia, nos anos 1820 um homem conhecido como Antônio Bexiga, por causa de suas cicatrizes de varíola (popularmente conhecida como bexiga), comprou as terras, o que é a explicação para o nome do bairro. Cerca de 50 anos depois, Antônio Bexiga loteou parte de sua chácara. Para afastar o sentido pejorativo do apelido, os novos moradores passaram a mudar a grafia de Bexiga para Bixiga. Outra característica marcante ocorreu no começo do século 20 quando passou a ser reduto da boemia paulista ao receber diversos teatros e os amantes do samba, com destaque para a Adoniran Barbosa. No bairro situa-se a sede da escola de samba Vai-Vai.

*A história de Walter Taverna se confunde com a do bairro do Bixiga. Neto de sicilianos, Taverna é responsável pelas festas comunitárias: bolo do aniversário da cidade de São Paulo de 1,5 km, maiores sanduíche (600 m) e pizza (554 m) do mundo e o concurso Miss do Bixiga. O nome dele consta no livro dos recordes, o Guinness Book.

 

 

Referências e inspirações femininas

29/10/2016 às 12h13 – Por Aurora Seles

Oprah Winfrey. Foto: Divulgação

Gosto de escrever sobre cultura e educação. Em meio à quantidade de obras e livros lidos aproveitei – a oportunidade para falar de três mulheres que são referências na minha trajetória de jornalista e futura advogada.

A década de 2003 a 2013 revelou aumento de 54,2% no total de assassinatos de mulheres negras. Proporcionalmente ao tamanho das respectivas populações, concluiu-se que no ano de 2013 foram assassinadas 66,7% mais meninas e mulheres negras em relação às brancas. O estudo também destacou o aumento de 190,9% de outras formas de violência contra essas meninas e mulheres, na mesma década. De fato, segundo dados da Central de Atendimento à Mulher (ligue 180), 59,4% dos registros de violência doméstica referem-se a mulheres negras.

O Dossiê Mulher 2015, do Instituto de Segurança do Rio de Janeiro, aponta que 56,8% das vítimas dos estupros registrados no Estado em 2014 eram negras. De acordo com o Ministério do Trabalho, a mulher negra é a maioria dentre as vítimas de assédio moral e sexual, bem como entre as vítimas de tráfico de pessoas. Acredito que esses dados, também, sejam fontes de informação para a trajetória de mulheres negras, ativas e de muito sucesso. A começar por Luislinda Dias de Valoá Santos, uma desembargadora e a primeira magistrada negra do Brasil. No Governo Michel Temer, assumiu a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial. Estudou Teatro e Filosofia antes de se formar em Direito na Universidade Católica do Salvador. Foi autora da primeira sentença de condenação por racismo no País, em 1993.

Na América do Norte, observo a carreira de Oprah Gail Winfrey, apresentadora do programa de maior audiência da história da TV. Representa o sonho americano: a menina pobre com história amarga que ficou bilionária. Criada pela avó sofreu abuso sexual na infância. Começou como repórter de TV antes de virar atriz. Vencedora de múltiplos prêmios Emmy por seu programa e indicada a um Oscar pelo filme “A cor púrpura”. Também é psicóloga.

E na área de comunicação, a ilustre Glória Maria Matta da Silva, jornalista. Na década de 1960 foi princesa do bloco Cacique de Ramos. Começou a trabalhar na área nos anos 70. Sua primeira reportagem para a “Rede Globo” foi a queda do Elevado Paulo de Frontin, em novembro de 1971 (o local é citado na música “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, 1969). A tragédia deixou 26 morros e 22 feridos. Glória foi a primeira mulher a cobrir uma guerra – Guerra das Malvinas, em 1982. Além do jornalismo, suas paixões são a leitura, a música e a dança.

Felizmente o número de mulheres no mercado de trabalho cresce a cada dia. Ainda há disparidade salarial e mesmo assim a caminhada é incessante. Por isso, vale buscar nomes ligados ao que procuramos desempenhar. E essa colunista é ávida pelo conhecimento. Risos. Aguardem novos textos e pesquisas. Aprenderemos juntos. Conto com vocês!

 

 

26/10/2016 00h17

A luta não é armada: Todo mundo fala, todo mundo escreve. Viva a comunicação


Aurora Seles

Nos últimos anos ouvimos muito a expressão: “era digital”. De um tempo para cá isso mudou e agora a pauta é: “era da diversidade”. Um tema está atrelado ao outro, até porque a internet possibilitou o debate de vários assuntos. E é incrível acompanhar as manifestações. Todo mundo fala, todo mundo escreve. Olha a comunicação aí gente!

E nessas andanças acompanhei um encontro sobre as mulheres negras: lutas, desafios, persistência e força. Uma roda de conversa com formadoras de opinião e muitos estudantes. Estes expuseram suas dores após pesquisarem sobre a escravidão e suas marcas históricas. O preconceito escancara a realidade de pobres, negros, gays, mulheres, nordestinos e deficientes.

Há outros eixos. A lista é grande. Ouvir os jovens é fundamental e não apenas por se tratar da futura geração, mas sim, pela oportunidade de acompanhar o que eles conhecem, esperam e pretendem. Sem falso moralismo, devemos contribuir com essa galera, e escutá-los, é o melhor caminho.

A educação é a grande porta da evolução humana e o ensino é democrático sim. Tenho orgulho de acompanhar as escolas que promovem esses tipos de encontros, a troca de ideias, o estímulo aos estudantes à exposição de pensamentos, opiniões e principalmente a busca pelo conhecimento.

Ouso parafrasear trechos das músicas Capítulo 4, Versículo 3, dos Racionais MCs: “Eu tenho uma missão e não vou parar…Minha palavra vale um tiro…Eu tenho muita munição”. E ainda, Travessia, de Milton Nascimento: “Estou só e não resisto, muito tenho pra falar. Solto a voz nas estradas, já não quero parar”.

Fica cada vez mais evidente que a luta não é armada. A voz ganhou força. Avante juventude!

 

15/10/2016 00h01

Docência segue um caminho escasso

Aurora Seles

Em 516 anos de história, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, mostra que o Brasil ultrapassa mais de 206 milhões de habitantes e, desse número, 13 milhões são analfabetos (não leem e não escrevem).

A informação representa 8,7% da população acima de 15 anos. Analfabetos funcionais, que conhecem letras e números, somam 27%. Para diminuir esses índices faz-se necessária uma política de educação mais atuante, porém, o déficit de professores aumenta significativamente.

O cenário é delicado. Há poucos que pretendem seguir a carreira de professor.

Embora seja uma profissão elogiada e fundamental, tem despertado cada vez menos o número de interessados no Brasil. Alguns motivos podem ser justificados pelos baixos salários, falta de ascensão na carreira e reflexos de problemas sociais dentro da escola.

A última estimativa divulgada pelo Ministério da Educação, MEC, dá conta de que faltem 170 mil docentes nos níveis fundamental e médio no país e, mesmo quando estão nas salas de aula, muitos deles não têm a qualificação necessária para a formação dos estudantes.

Nas escolas públicas do Brasil, 200.816 professores lecionam em disciplinas nas quais não têm formação, isso equivale a 38,7% do total de 518.313 professores na rede. Os dados estão no Censo Escolar de 2015 e foram divulgados pelo MEC.

Na outra ponta, 334.717 mil posições, ou 47,2%, são ocupadas por docentes com a formação ideal, ou seja, com licenciatura ou bacharelado com complementação pedagógica na mesma disciplina que lecionam. Mais 90.204, 12,7% de posições, são ocupadas por professores que não têm sequer formação superior.

Fica muito difícil melhorar a qualidade da educação sem investir no professor.

No dia 15 de outubro de 1827, o Imperador Pedro I decretou a criação de escolas elementares em todas as povoações brasileiras. Curiosamente, passados 189 anos, ainda não conseguimos ensinar letras nem mesmo aos professores. Triste realidade! A data deveria ser feriado nacional – e não pelo dia de descanso -, mas sim pela importância da profissão.

A base, a raiz de tudo, começa pelas mãos de um professor, educador, instrutor ou, permita-me caro leitor, de um mestre.

Ensinar é um dom, uma oblação. E para saudar esse dia vale lembrar que é o professor quem contribui para a descoberta do pensamento, do raciocínio e do saber viver. E reitero os quatro pilares da educação, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, a Unesco: conhecer, fazer, conviver e finalmente, ser. Uma profissão totalmente humana.

 

28/09/2016 14h12

‘Cartola de Ouro’

Redação SP

No ano em que é comemorado o centenário do samba um dos nomes lembrados é o de Cartola. Sambista, fundador da Estação Primeira de Mangueira, tradicional escola de samba carioca, é, até hoje um marco do samba.

Angenor de Oliveira (11-10-1908 a 30-11-1980) era também conhecido por Divino e Poeta das Rosas. O apelido Cartola surgiu quando trabalhava em uma obra e – para não sujar o cabelo – passou a usar um chapéu coco. Desde então esse codinome ficou eternizado.

Aprendi que sempre vale a pena conhecer a obra de um gênio, e se for popular, aí é imprescindível. Nas duas últimas semanas conferi duas homenagens voltadas especialmente para ele.

No musical “Cartola – o mundo é um moinho”, em cartaz até o dia 31 de outubro, no teatro Sérgio Cardoso, a peça com idealização e elenco renomados retrata a vida e obra do mestre, pautadas pelas canções do compositor.

Há também convidados como as velha-guardas das escolas paulistanas Águia de Ouro, Vai-Vai e Tom Maior e cantores do segmento como Jorge Aragão e Arlindo Cruz. Tudo elaborado com muito carinho e simplicidade, características peculiares do agraciado.

Já a exposição “Ocupação Cartola”, no Itaú Cultural até 13 de novembro, traz outros cuidados, também especiais a quem visita o espaço. A trajetória do artista é retratada por manuscritos originais, fotos e vídeos.

Réplicas do cardápio do restaurante Zicartola e um livro inédito de poemas guardados pela neta de Cartola, Nilcemar Nogueira, também diretora do Museu do Samba, localizado no Morro da Mangueira, no Rio de Janeiro.

Durante a visitação recebi um guardanapo de papel com a letra da música “Acontece”, escrita em 1972, em verde e rosa. Música de Cartola, a qual ele gostaria de ser lembrado para sempre. A revelação está registrada em uma entrevista televisiva do ano de 1977.

“Esquece nosso amor vê se esquece
Porque tudo no mundo acontece
E acontece que já não sei mais amar
Vai chorar, vai sofrer
E você não merece
Mas isso acontece
Acontece que meu coração ficou frio
E nosso ninho de amor está vazio
Se eu ainda pudesse fingir que te amo
Ai se eu pudesse
Mas não quero, não devo fazê-lo
Isso não acontece”

 

Devemos às gerações pós-bossa nova e pós-festivais muito do que aconteceu à nossa música popular entre os anos de 1973/1985. Época da censura, onde a maioria dos músicos conseguiu manter-se em plena atividade.

Figuras renomadas como mestre Cartola, Nelson Cavaquinho, Clara Nunes, Roberto Ribeiro, João Nogueira, Nei Lopes, Noca da Portela e Donas Ivone Lara, sambistas que tiveram suas carreiras consolidadas na década de 70, além de outros bambas como Dicró e Bezerra da Silva, adeptos do samba de malandragem e vários intérpretes.

Salve o centenário do samba!

 

25/05/2016 11h32

Religiões afro-brasileiras sob um olhar poético

Aurora Seles

Os rituais e as festas são partes integrantes da cultura e uma parte do folclore brasileiro. Adoro pesquisar, de modo contumaz, nossa história cultural.

Na última semana, tive o privilégio de manusear uma das obras de Cecília Meireles (1901-1964) de 1983, pela Funarte. O título “Batuque, samba e macumba – estudos de gesto e de ritmo” é uma síntese da jornalista, pintora, escritora e professora brasileira que retratou o período de 1926 a 1934 com ilustrações e textos do Carnaval e costumes brasileiros.

Todas as ilustrações do livro, pintadas pela escritora, foram expostas em 1933. À época, a imprensa noticiou que aquela exposição fixaria os ritmos do samba, as figuras típicas da baiana e do bamba.

Cecília, que também era poetisa, detalha o que é o xale retangular de um e meio a dois metros de comprimento, com uma largura de uns 80 centímetros, atravessado de listas duradouras, entremeadas de algum fio metálico, ou apenas riscado de azul e branco. Trata-se do autêntico pano da “Costa” (da costa de África). Usado pelas baianas em todos os segmentos.

Outro trecho, minuciosamente transcrito, sob o olhar de nossa protagonista. “No canzol estão, pois, os santos com os seus emblemas: Xangô, Ogum, Oxossi, com fitas vermelhas. Machados, espadas, flechas, etc – uma vez que tudo os distingue: cores, objetos e substâncias. Iemanjá, por exemplo, tem como emblemas as rosas brancas, a estrela-do-mar, os búzios, os seixos rolados, miçangas brancas ou azuis, fitas da mesma cor. Se a Umbanda é o terreiro físico, onde se desenvolve a macumba, um outro terreiro existe, na imaginação do negro, em plano astral, correspondente àquele, e onde repercute o bem e o mal que nele se pratica, despertando assim as forças sobrenaturais que passam a agir segundo o poder dos feiticeiros, e à sua vontade – sempre que a sua vontade for justa. É o terreiro da Aruanda”.

Os olhos cintilam enquanto folheio e viajo nas pinturas e linhas da autora. A forma lírica e pueril como define nossos costumes é sedutor. Eis outra parte da narrativa. “A macumba em seu aspecto festivo tem uma doçura selvagem, um encantamento profundo, de onde se exala o torpor misterioso e a invencível atração da selva africana, povoada de deuses e demônios, tão autênticos como a água dos rios, os troncos das árvores e as feras que passeiam, sem dizerem aos homens de onde vêm nem quem são. Traduzem, além disso, a saudade do negro pela choça dos seus antepassados, o banzo da ausência sem volta, a melancolia da vida que o Atlântico partiu – e que o bom brasileiro acolheu em sua alma com ternura, para consolar o antigo escravo e antiga ama, que lhe encheram a infância de lendas e cantigas e deixaram seu sangue na terra que plantaram – seu coração nos berços que moveram e a última esperança num mundo mais feliz, na Aruanda do sonho, que a música e o fumo da macumba permitem às vezes entrever”.

Todas as religiões que foram trazidas para o Brasil pelos negros africanos, ainda na condição de escravos, são consideradas afro-brasileiras. A lista passa de 15 costumes e rituais africanos, mas a predominância em todos os estados brasileiros está no Candomblé, Quimbanda e Umbanda.

O termo candomblé é uma junção do termo quimbundo candombe (dança com atabaques) com o termo iorubá ilé ou ilê (casa): ou seja, “casa da dança com atabaques”. É uma religião derivada da natureza africana onde se cultuam os Orixás e voduns. Mantêm mais de três milhões de seguidores em todo o mundo. A ligação dos cultos é um fenômeno brasileiro em decorrência da importação de escravos onde, agrupados nas senzalas, nomeavam um zelador de santo também conhecido como babalorixá no caso dos homens e iyalorixá no caso das mulheres.

A Quimbanda é um conceito religioso de origem afro-brasileira, presente na Umbanda, ainda controverso quanto a sua real definição na atualidade. Por vezes, é classificada como uma religião autônoma. Suas entidades vibram nas matas, cemitérios e encruzilhadas, também conhecidos como “Povo da Rua” e abrangem os mensageiros ou guardiões Exus e Pomba-gira. Estas entidades trabalham basicamente para o desenvolvimento espiritual das pessoas, com o intuito da evolução, além de proteção de seu médium. Como são as entidades mais próximas à faixa vibratória dos encarnados, apresentam muitas semelhanças com os humanos.

A Umbanda, de origem brasileira, sintetiza vários elementos das religiões africanas e cristãs, porém sem ser definida por eles. Oriunda da língua quimbunda de Angola e significa “magia”, “arte de curar”. Formada no início do século XX, no sudeste do Brasil, é considerada uma religião brasileira por excelência, com um sincretismo que combina o catolicismo, a tradição dos orixás africanos e os espíritos de origem indígena. O dia 15 de novembro, já considerado como a data do surgimento da Umbanda pelos seus adeptos, foi oficializado no Brasil em 18 de maio de 2012 através da Lei 12.644.

Durante a III Semana de Folclore, em 1950, na cidade de Porto Alegre/RS, Cecília Meireles declarou a respeito da mostra: “Eu não vim aqui, propriamente, como uma especialista na matéria. Eu vim como uma pessoa que, cansada de buscar caminhos para que os homens se entendam em outros setores de atividades intelectuais, procura, no folclore, talvez um caminho mais ameno, talvez um caminho mais possível. (…) encontrem no folclore a solução para muitos de seus problemas pela compreensão das suas origens, da sua identidade, daquilo que neles é transitório e também aquilo eu neles é permanente”.

Muito obrigada Cecília Meireles. Sua obra, genuinamente brasileira, fortalece nossa origem e nossa cultura. Motumbá!

 

16/05/2016 11h04

Reverência às mulheres no Carnaval brasileiro

Aurora Seles

Quinta-feira, 12 de maio, foi um dia marcado por um acontecimento político. O Brasil passou por mudanças e o Ministério refeito por um time, exclusivamente, masculino. Sem levantar bandeira – ou polemizar – aproveito esse espaço, dedicado à cultura, para relembrar algumas mulheres homenageadas no Carnaval do nosso país.

Na linha do tempo, nos últimos vinte e dois anos, foram mais de dez nomes femininos que tiveram suas histórias cantadas nas cidades carioca e paulistana.

Relembre alguns enredos:

1994: Sociedade Rosas de Ouro – “Sapoti”. Campeã, Especial.

Carnavalesco: Tito Arantes. Voltado à cantora e atriz Angela Maria, nascida em 13/5 na cidade de Macaé/RJ.

1996: Vai-Vai – “A rainha, à noite tudo transforma”. Campeã, Especial.

Carnavalesco: Sidinho Ramos. Homenageada à empresária Lilian Gonçalves, nascida em 21/4 no estado de Minas Gerais.

2012: Império Serrano – “Dona Ivone Lara: o enredo do meu samba”. Vice-campeã, Acesso.

Carnavalesco: Mauro Quintaes. Retratou a história da cantora e compositora nascida em 13/4 no Rio de Janeiro.

2012: Acadêmicos do Tatuapé – “Tatuapé 60 anos – Da arte do samba, nasci para comunidade, defesa e essência. Sou guerreira! Sou Leci Brandão”. Vice-campeã, Acesso.

Carnavalesco: Mauro Xuxa. História da cantora e compositora nascida em 12/9 no Rio de Janeiro.

2012: Portela – “E o povo na rua cantando… é feito uma reza, um ritual…”. Sexto lugar, Especial.

Carnavalesco: Paulo Menezes. Referência à cantora Clara Nunesnascida em 12/8 na cidade de Paraopeba/MG. Faleceu no Rio de Janeiro em 2/4/1983.

2012: Unidos do Cabuçu – “A Cabuçu dá a Elza na Avenida”. Décimo segundo lugar, Grupo C.

Carnavalescos: Marco Aramha e Marcyo de Olliveira. História da cantora e compositora Elza Soares, nascida em 23/6 no Rio de Janeiro.

2013: Acadêmicos do Tatuapé – “Beth Carvalho, a madrinha do samba”. Décimo primeiro lugar, Especial.

Carnavalesco: Mauro Xuxa. Narrou a história da cantora e compositora nascida em 5/5 no Rio de Janeiro.

2015: Mocidade Alegre – “Nos palcos da vida, uma vida no palco…Marília”. Vice-campeã, Especial.

Carnavalescos: Márcio Gonçalves e Sidnei França. A escola homenageou a atriz, cantora e diretora teatral brasileira Marília Pêra, nascida em 22/1 no Rio de Janeiro. Faleceu em 5/12/2015.

2015: Vai-Vai – “Simplesmente Elis. A fábula de uma voz na transversal do tempo”. Campeã, Especial.

Carnavalescos: Alexandre Louzada, Eduardo Caetano e André Marins. Enredo sobre a vida da cantora Elis Regina, nascida em 17/3 na capital Porto Alegre/RS. Faleceu em São Paulo no dia 19/1/1982.

2015: Nenê de Vila Matilde – “Nenê apresenta seu musical: Rainha Raia nas asas do Carnaval”. Nono lugar, Especial.

Carnavalesco: Roberto Szaniecki. Tema voltado à atriz, dançarina e cantora Claudia Raia, nascida em 23/12 na cidade de Campinas/SP.

2016: Estação Primeira de Mangueira – “Maria Bethânia: A menina dos olhos de Oyá”. Campeã, Especial.

Carnavalesco: Leandro Vieira. Contou a história da cantora e compositora nascida em 18/6 no município de Santo Amaro/BA.

2017: Acadêmicos do Sossego – “Zezé Motta – A Deusa de Ébano”. Série A.

Carnavalesco: Marcio Puluker. O enredo retratará a vida da atriz e cantora, nascida em 27/6 no município de Campos dos Goytacazes/RJ.

2017: Grande Rio – “Hoje é dia de Ivete”. Especial.

Carnavalesco: Fabio Ricardo. A escola retratará a vida da cantora Ivete Sangalo, nascida em 27/5, em Juazeiro/BA.

São nomes reverenciados em nossa história e que nos convidam a várias rodas de conversas, prosa boa e saudosismo. Aplausos mil!

 

 

28/04/2016 10h50

Alquimia de Hermes Trismegisto cantada por Jorge Ben

Aurora Seles

Em abril é comemorado o dia de São Jorge (275 – 23 de abril de 303 d.C., Nicomédia, Turquia), um soldado romano no exército do imperador Diocleciano, venerado como mártir cristão e que na biografia de santos é um dos mais venerados no catolicismo (tanto na Igreja Católica Romana e na Igreja Ortodoxa como também na Comunhão Anglicana).

Imortalizado na lenda em que mata o dragão, São Jorge é também um dos 14 santos auxiliares. O dia 23 de abril, para algumas das religiões afro-brasileiras, é a data em que se fazem homenagens para Ogum – um dos principais Orixás.

Na música brasileira, há um grande Jorge. Seu nome de batismo, Jorge Duílio Lima Meneses, conhecido como Jorge Ben, é guitarrista, cantor e compositor. Na década de 80 mudou seu nome artístico para Jorge Ben Jor, provavelmente pela numerologia, mas fontes comentam que a ideia ocorreu para evitar confusões com o músico americano George Benson, pois Jorge Ben começava a se tornar muito conhecido nos Estados Unidos. Carioca de Madureira, nasceu em 22 de março de 1945.

Ganhou seu primeiro pandeiro aos 13 anos de idade e, dois anos depois, já cantava no coro de igreja. Também participava como tocador de pandeiro em blocos de Carnaval. Aos 18, ganhou um violão de sua mãe e começou a se apresentar em festas e boates, tocando bossa nova e rock and roll. No início dos anos 60 apresentou-se no Beco das Garrafas, que se tornou um dos redutos da bossa nova. Em 1963, subiu no palco e cantou “Mas que Nada” para uma pequena plateia, que incluía um executivo de uma renomada gravadora.

Dois meses depois, era lançado o primeiro compacto de Jorge Ben, que inclui ainda “Por Causa de Você, Menina”. No mesmo ano lançou o primeiro LP, “Samba Esquema Novo”, acompanhado pelo conjunto de samba jazz Meireles e os Copa Cinco. “Mas que Nada” foi seu primeiro grande sucesso no Brasil e também é uma das canções mais executadas nos Estados Unidos até hoje, na versão do pianista brasileiro Sérgio Mendes com o grupo de hip hop norte-americano “Black Eyed Peas”.

Participou dos programas Divino, Maravilhoso e O Fino da Bossa, época em que obteve enorme sucesso com “Cadê Tereza?”, “País Tropical”, “Que Pena e Que Maravilha”. Nos anos 70, Jorge Ben lançou os álbuns “A Tábua de Esmeralda”, 1974; “Solta o Pavão”, 1975 – ano em que compôs “Jorge de Capadócia”, que já foi interpretada por Caetano Veloso, Fernanda Abreu e pelos Racionais MC’s; em 1976 lançou “África Brasil”. Todos são considerados clássicos da música brasileira. Lançou mais de 35 discos e vendeu milhares de cópias. Em 2004, lançou “Reactivus Amor Est” (Turba Philosophorum), primeiro álbum com canções inéditas desde 1995.

Atualmente, seus shows costumam durar cerca de três horas. O álbum “A Tábua de Esmeralda” une som e alquimia. Na primeira faixa, Jorge Ben canta “Os alquimistas estão chegando! Estão chegando os alquimistas”, um convite para ouvir composições de um mundo peculiar. O nome do disco é o texto escrito por Hermes Trismegisto que deu origem à Alquimia. Hermes Trismegisto, uma divindade originada do sincretismo entre Hermes, deus da mitologia grega, e Toth, deus egípcio do conhecimento, da sabedoria e da magia. Trismegisto significa “três vezes grande”, pois ele conhece as três partes da filosofia universal: a alquimia, a astrologia e a teurgia.

A letra de Jorge Ben na canção Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda é composta, literalmente, da Tabula Smaradigna, tradução latina de uma obra alquímica árabe que data do século XII, também atribuída a Hermes Trismegisto e muitíssimo influente na idade média tanto para o mundo árabe quanto para o mundo cristão.

A tradução da Tabula Smaragdina significa: É verdade, certo e muito verdadeiro. O que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa. E assim como todas as coisas vieram do Um, assim todas as coisas são únicas, por daptação. O Sol é o pai, a Lua é a mãe, o vento o embalou em seu ventre, a Terra é sua alma. O Pai de toda Telesma do mundo está nisto. Seu poder é pleno, se é convertido em Terra. Separarás a Terra do Fogo, o sutil do denso, suavemente e com grande perícia. Sobe da terra para o Céu e desce novamente a Terra e recolhe a força das coisas superiores e inferiores. Desse modo obterás a glória do mundo. E se afastarão de ti todas as trevas. Nisso consiste o poder poderoso de todo poder.

Vencerás todas as coisas sutis e penetrarás em tudo o que é sólido. Assim o mundo foi criado. Esta é a fonte das admiráveis adaptações aqui indicadas. Por esta razão fui chamado de Hermes Trismegisto, pois possuo as três partes da filosofia universal. O que eu disse da Obra Solar é completo. A música popular, assim como outro tipo de arte, é produzida em sua totalidade cultural. Coube a indústria fonográfica armazená-la como produto lírico e musical para conteúdo técnico, e principalmente, expressões variadas, de universos e argumentos, anteriormente apenas visualizados em textos poéticos para resgates nostálgicos.

Letras musicais, compostas com substâncias líricas, também são artes verbais e felizmente, assim como a síntese do álbum acima, há inúmeras obras que nos cercam de informação. Aplausos ao Jorge Ben Jor. Salve Jorge! Confira letra da música Hermes Trismegisto e sua celeste tábua de esmeralda, escrita por Jorge Ben

“Hermes Trismegisto escreveu

com uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda

O que está embaixo é como o que está no alto,

e o que está no alto é como o que está embaixo.

E por essas coisas fazem-se os milagres de uma coisa só.

E como todas essas coisas são e provêm de um

pela mediação do um,

assim todas as coisas são nascidas desta única coisa por adaptação.

O sol é seu pai, a lua é a mãe.

O vento o trouxe em seu ventre.

A terra é seu nutriz e receptáculo.

O Pai de tudo, o Thelemeu do mundo universal está aqui.

O Pai de tudo, o Thelemeu do mundo universal está aqui.

Sua força ou potência está inteira,

se ela é convertida em terra.

Tu separarás a terra do fogo e o sutil do espesso,

docemente, com grande desvelo.

Pois Ele ascende da terra e descende do céu

e recebe a força das coisas superiores

e das coisas inferiores.

Tu terás por esse meio a glória do mundo,

e toda obscuridade fugirá de ti.

e toda obscuridade fugirá de ti.

É a força de toda força,

pois ela vencerá qualquer coisa sutil

e penetrará qualquer coisa sólida.

Assim, o mundo foi criado.

Disso sairão admiráveis adaptações,

das quais aqui o meio é dado.

Por isso fui chamado Hermes Trismegistro,

Por isso fui chamado Hermes Trismegistro,

Tendo as três partes da filosofia universal.

Tendo as três partes da filosofia universal.

O que disse da Obra Solar está completo.

O que disse da Obra Solar está completo.

Hermes Trismegisto escreveu com uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda.

Hermes Trismegisto escreveu com uma ponta de diamante em uma lâmina de esmeralda”.

 

08/03/2016 10h00

Homenagens às mulheres em diversos segmentos

Público predominante no Brasil e no mundo. Alguns nomes que marcaram a história

Aurora Seles

A ideia era trabalhar esse texto e usar como base a música de Benito di Paula, “Mulher Brasileira” (1975), mas a geografia ficaria restrita. Ao falar do expressivo gênero feminino – de A a Z -, incluem-se Ana Maria Botafogo, na dança clássica; Anne Frank, famosa pelos documentos em que relata suas experiências enquanto vivia escondida durante o holocausto; Zuzu Angel, estilista brasileira, conhecida pela procura de seu filho durante a ditadura militar e, claro dona Zica Cartola, grande símbolo do Carnaval.

Especialistas afirmam que a profissão do futuro é a do empreendedor, com destaque às mulheres. Em todos os segmentos elas brilham porque o termo “sexo frágil” está em desuso. São multifacetadas. Administram lares, finanças, políticas, empresas e muitos negócios. Geraram e reproduzirão a espécie.

Embora o preconceito ainda persista, vivemos um momento histórico na categoria feminina. O espaço foi conquistado com dignidade e persistência. Modelos que se destacaram pela sua energia, audácia, entusiasmo e feitos heroicos não faltam ao longo de toda a história da humanidade. Todas, sem exceção, merecem a homenagem feita no dia 8 de março. A lista é numerosa pela grande influência que foram e são destaques nas respectivas épocas de suas existências. Confira alguns nomes:

Na área jurídica, por exemplo, há uma grande referência. A baiana Luislinda Valois, nascida em 1942. Estudou teatro, filosofia e direito até se tornar a primeira juíza negra do Brasil, em 1984, adotando o uso de colares de candomblé em suas audiências.

Aracy Cortes (RJ, 1904-1985) foi uma cantora brasileira, vizinha de um rapaz negro que tocava flauta, Pixinguinha. Começou a cantar em vários teatros da cidade, tornando-se conhecida pela voz de timbre soprano e o jeito personalista de cantar. Projetou-se como a primeira grande cantora popular, destacando-se em meio ao quase exclusivismo das vozes masculinas da época. Foi dela também a primeira audição de “Aquarela do Brasil ” (Ary Barroso), a primeira e mais importante canção exportada para os EUA, inaugurando o gênero samba-exaltação.

Mãe Menininha do Gantois (BA, 1894-1986) foi uma Iyálorixá (mãe-de-santo) brasileira, filha de Oxum. Abriu as portas do Gantois aos brancos e católicos – uma abertura que, em muitos terreiros, ainda é vista com certo estranhamento. Nunca deixou de assistir à missa e até convenceu os bispos da Bahia a permitir a entrada nas igrejas de mulheres, inclusive ela, vestidas com as roupas tradicionais do candomblé.

Dandara (1664-1694). Não há confirmação do local de seu nascimento, Brasil ou no continente africano, mas teria se juntado ainda menina ao grupo de negros que desafiaram o sistema colonial escravista por quase um século. Ela participava também da elaboração das estratégias de resistência do quilombo. Esposa do Zumbi dos Palmares, foi uma guerreira feroz e brava defensora do quilombo. Suicidou-se para não voltar à condição de escrava. Dominava técnicas da capoeira e teria lutado ao lado de homens e mulheres nas muitas batalhas consequentes a ataques a Palmares, estabelecido no século XVII na Serra da Barriga, região de Alagoas, cujo acesso era dificultado pela geografia e também pela vegetação densa.

Ema Klabin (RJ, 1907-1994). Apreciadora de música e de arte teve uma significativa atuação na vida cultural da cidade, com participação nos conselhos de instituições culturais, além de promover artistas, participar de leilões beneficentes em prol das entidades que apoiava e realizar concertos em sua própria casa com artistas de renome. Já no final de sua vida, e não tendo herdeiros diretos, preocupou-se com o destino de sua coleção e criou a Fundação Cultural Ema Gordon Klabin, para que se criasse um novo museu aberto à visitação pública.

Tarsila de Amaral (SP,1886-1973). Uma das mais importantes pintoras brasileiras do movimento modernista. Seu quadro Abaporu de 1928 inaugura o movimento antropofágico e foi a obra brasileira a alcançar o maior valor em um leilão internacional: 1,5 milhão de dólares.

Maria Firmina dos Reis (MA, 1825-1917). Escritora, considerada a primeira romancista brasileira. Mulata e bastarda, enfrentou a barreira dos preconceitos e publicou, em 1859, o romance Úrsula, considerado o primeiro romance abolicionista do Brasil e um dos primeiros escritos produzidos por uma mulher brasileira. Em 1880, fundou uma escola gratuita e mista, para meninos e meninas, o que causou escândalo no povoado de Maçaricó, em Guimarães. A escola teve de ser fechada em menos de três anos.

Shirley Horn (Washington, DC 1934-2005, cantora e pianista norte-americana de jazz e de pop. Colaborou com muitos grandes nomes do jazz e foi mais conhecida por sua habilidade de cantar e acompanhar-se ao piano com a independência quase incomparável e por sua voz rica e exuberante, um contralto encruado. Embora ela pudesse oscilar tão fortemente como qualquer artista de jazz linha de frente, a reputação de Horn ancorou em sua requintada balada. Foi nomeada para nove prêmios Grammy Awards durante sua carreira, ganhando o Prêmio Grammy Award for Best Jazz Vocal Performance no 41° Prêmio 41st Grammy Awards com “I Remember Miles”, uma homenagem a seu amigo e mentor.

Rosa Parks (EUA, 1913-2005). Costureira americana, tornou-se símbolo do movimento civil pelos direitos dos negros ao recusar ceder seu lugar a um branco em um ônibus em 1955. Sua luta solitária acabou chegando aos ouvidos de Martin Luther King, que incitou os negros a recusar o transporte público branco.

Maria da Penha (CE, 1945). É uma farmacêutica brasileira que lutou para que seu agressor viesse a ser condenado. Com 70 anos e três filhas, hoje ela é líder de movimentos de defesa dos direitos das mulheres, vítima emblemática da violência doméstica. Sua luta e história inspiraram a lei de proteção das mulheres em casos de violência doméstica. Hoje é coordenadora da Associação de Estudos, Pesquisas e Publicações da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência.

Luiza Erundina (PB, 1934). Assistente social e Deputada Federal pelo estado de São Paulo. Em 1988 eleita a primeira prefeita da maior metrópole brasileira. A gestão teve o período de 1989 a 1993. Elaborou ações importantes nas áreas de educação (os responsáveis pela pasta eram os educadores Paulo Freire e, depois, Mário Sérgio Cortella, reconhecidos internacionalmente). Na área da cultura (comandada pela filósofa Marilena Chauí) foi responsável pela construção do Sambódromo do Anhembi e pela restauração das grandes bibliotecas do centro da cidade, como a Biblioteca Mário de Andrade. Também sancionou a lei de incentivo fiscal à cultura do município, a Lei Mendonça.

 

21/07/2015 11h30

Cuidar da voz é um ato constante dos intérpretes

Cantores de samba-enredo são peças-chave para a emoção do Carnaval


Aurora Seles

Chegamos ao segundo semestre. Período em que as agremiações estão engajadas nas eliminatórias para a escolha de seus sambas de enredos. A disputa ocorre por pelo menos dois meses. Grupos de compositores apresentam suas canções e, sem dúvida, selecionam a dedo o intérprete a defender sua obra. A letra e a melodia na voz de um bom cantor enaltecem a composição e ganham a conquista do público.

Tudo é regado com muita emoção e garra, afinal, a maratona envolve as eliminatórias para definir o samba, a vitória e a demonstração durante os ensaios gerais e técnicos, e no desfile oficial.

Alguns se referem aos “puxadores do samba”, mas a referência foi contestada pelo saudoso Jamelão (José Bispo Clementino dos Santos, Rio de Janeiro, 1913-2008, cantor brasileiro, tradicional intérprete dos sambas-enredo da escola de samba Mangueira). Esplêndido em toda sua gloriosa voz e interpretação.

“Puxador é puxador de corda, puxador de carro, puxador de fumo, puxa-sacoâ?¦ Eu sou é intérprete”, declarava.

Portanto, os intérpretes são os responsáveis pelo canto do samba-enredo antes, durante e no dia do espetáculo levado ao Sambódromo. São horas incontáveis. Haja fôlego! Para falar dessa peculiaridade – a voz – conversei com uma querida amiga e profissional do ramo. Clara Rocha é fonoaudióloga especialista em voz, cantora, atriz e professora de técnica e expressão vocal.

Iniciamos o papo com dois pontos especiais, a resistência e a qualidade vocal. Para gravar uma locução comercial de meio minuto é mais importante a qualidade da voz do que a resistência. Neste caso, mesmo que a voz tenha um registro mais caricato ou não tão confortável, os poucos segundos dessa gravação dificilmente podem prejudicar a voz do locutor.

Ao comparar o cantor de samba-enredo, poderia mensurar o período de uma hora e outros tantos minutos na avenida. E para ele, após o desfile, bastaria descansar a voz, mas não é bem assim. A adrenalina toma conta. Por isso é perguntado: o que o cantor precisa para manter uma boa voz: qualidade ou resistência?

Nesse caso – canto popular – é necessário sim que haja qualidade vocal mínima, mas uma voz que tenha alteração leve, como rouquidão discreta ou ar na voz – para alguns cantores pode ser utilizado até mesmo como um recurso artístico – muito bem aceitos e podem ser minimizados com exercícios e treinamento vocal. No entanto, o intérprete certamente precisa ter resistência na voz e dar conta de uma demanda tão exigente como a do carnaval brasileiro.

Vale considerar os ensaios pré-carnaval, ensaios em casa, nas quadras e toda rotina do cantor. Normalmente esse profissional é comunicativo. Isso também é um desgaste vocal.

Por isso, é necessário ficar atento. Será que o desgaste ocorre apenas durante o canto, ou quando ele conversa normalmente? Vale considerar o ambiente ruidoso que promove o desgaste na voz, para qualquer pessoa, seja falada ou cantada.

Observe: um professor exerce 12 horas de aula e depois vai cantar. Certamente ele sentirá fadiga em sua voz e esforço em determinadas notas. Esse sintoma foi provocado pela atividade anterior, ou seja, no desgaste da voz falada.

O mau uso na voz falada reflete na voz cantada. Isso é comum acontecer. É preciso observar a frequência do uso da voz nesses aspectos, mas a maioria das reclamações é oriunda da voz falada. Os intérpretes de samba-enredo – onde a demanda é alta – têm de focar na resistência vocal e os cuidados preventivos são essenciais.

Clara recomenda que todos façam aula de canto. “Tudo é na raça, há uma grande emoção por trás da voz e a expressividade torna-se fundamental a esses cantores. Mas não adianta ter uma voz linda e maravilhosa, muitas vezes por ser visceral, e abrir mão da técnica”.

Alguns cantores gritam e não percebem o abuso e mau uso da voz, isso pode ocasionar lesões futuras nas pregas vocais. Podemos compará-los aos professores. Este profissional até pode ter uma voz rouca, mas tem de ser resistente, porque ele fica em sala de aula quase todos os dias.

Essa é a principal queixa e ocorre pelo mau uso da voz, sem monitoramento. Não há treinamento na faculdade de educação ou qualquer escola para prevenir e aprimorar a voz e a comunicação.

Por isso, o estudo do canto é importante, no sentido do condicionamento da laringe para suportar a demanda vocal e também o esforço físico.

“A voz é o tato à distância”, ensinava Daniel Boone (1734-1820). Um dos primeiros heróis populares dos Estados Unidos, pioneiro e caçador que explorou as florestas ocupadas por nativos indígenas. Baseada em sua história existiu uma série de televisão americana (ação-aventura).

Cuidados essenciais

1 – Procure um profissional para acompanhar os cuidados com a sua voz antes de qualquer queixa instalada, e não apenas quando surgir alguma dor, ou outro incômodo. As dicas das vovós ou mamães: tomar conhaque para aquecer a voz, usar pastilhas, tomar chá de gengibre e outras recomendações, são cuidados temporários. Pode ocorrer de o intérprete notar que está rouco, porém, fisicamente se sente normal. Esse é um alerta, a voz está comprometida e pede cuidados. Compare: um atleta da maratona da São Silvestre não irá a uma festa rave no ano novo porque isso vai deixá-lo cansado. Da mesma forma, o cantor que tem a demanda vocal aumentada terá fadiga. Precisa intercalar o uso da voz com momentos de repouso vocal, além de realizar exercícios que lhe darão conforto e maior resistência da voz.

2 – Hidratação é extremamente importante. No período do carnaval o clima é quente e é necessária a reposição de água no organismo. A prega vocal é uma região mucosa e precisa ser hidratada, assim como todo o corpo.

3 – Repouso vocal. Uma noite de repouso contribuirá – e muito – na voz. Transmitir a emoção, mas cuidar da voz. Esse ajuste vocal é feito sob a orientação de especialistas, sejam fonoaudiólogos, professores de canto, preparadores vocais, além da autopercepção e autoconhecimento vocal. A voz é escuta. O bom falante é antes de tudo um bom ouvinte, portanto, escute a sua voz, observe se canta em uma boa tonalidade, escolha aquela que seja adequada à sua voz e perceba se está cantando de maneira confortável. É importante que o próprio cantor identifique se há excesso, esforço ou se o canto está extremamente agudo ou grave, em relação ao seu tom habitual. Automedicação é perigoso! Para qualquer queixa recomenda-se falar com profissionais de otorrinolaringologia ou fonoaudiologia. O uso de sprays e pastilhas anestesia a garganta, trazem conforto momentâneo, mas mascaram possíveis problemas vocais.

Um grande inimigo do cantor de escola de samba é a competição sonora. Em uma quadra é difícil falar baixo, pois no ambiente, além da bateria, as pessoas conversam e naturalmente elevam a voz. Esse fenômeno, conhecido como Efeito Lombard – elevação automática da intensidade, na presença de ruído mascarante – é observado também em outros profissionais, como os repórteres, que aumentam a intensidade da voz quando gravam reportagens em lugares ruidosos.

Há muitos cantores que não têm o hábito de fazer aquecimento vocal ou ter cuidados específicos com a voz e cantam muito bem. Ainda assim, a fonoaudióloga reitera a importância dessa prática de aquecimento vocal, com o objetivo de dar conforto e resistência à voz, para diminuir o cansaço vocal no final do desfile.

Hábitos caseiros

Gengibre – quando ingerido ele não passa diretamente pela prega vocal, mas vai através do esôfago em direção ao estômago. A prega vocal está na via respiratória e não digestiva, desta forma os alimentos não “passam” pela prega vocal. Embora o gengibre apresente propriedades anti-inflamatórias, ele não é capaz de “curar” uma rouquidão causada por abuso vocal.

O mesmo princípio vale para a maçã, embora tenha funções adstringentes, não solucionará uma lesão de prega vocal, como edema, nódulo ou outros problemas na voz. Por outro lado, a fruta funciona como um alimento para reduzir o pigarro, ou derivado de leite que deixa a saliva mais espessa. O álcool, assim como a pastilha e o spray, não é bom para a voz, uma vez que dá sensação de anestesia e pode mascarar um problema.

A água é uma grande amiga do corpo humano. Quando tomamos água o trato vocal é hidratado. Outra dica é a inalação – ar-úmido – que aí sim “passa pela prega vocal” e hidrata esta região. De um modo geral, muitas pessoas moram em cidades poluídas e lavar o nariz com soro fisiológico, melhora o funcionamento das vias aéreas, o que pode impactar positivamente na voz.

A especialista em voz recomenda ao intérprete para não esperar ficar rouco e, posteriormente, buscar um profissional. “Trabalhe sua voz para aguentar a demanda do carnaval. O cantor de samba-enredo tem uma voz cantada, próxima da falada, porque ele chama as pessoas e traz energia e emoção na voz”. Inclusive são quesitos avaliados pelo público. Clara complementa: “Seria ideal ao intérprete ter o acompanhamento da tríade: otorrino, fono e professor de canto para manter a voz saudável e resistente”. As consequências podem ser lesões nas pregais vocais, como os conhecidos nódulos, pólipos, entre outros. Alguns casos são tratados com fonoaudiologia, outros são cirúrgicos. Para não chegar ao extremo, procure um especialista e cuide de sua voz!

 

 

18/05/2015 00h01

Uma mulher guerreira na direção de Carnaval

Redação SRZD

Abro o artigo com um trecho da música Samba da Benção, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, da década de 60:

“O branco mais preto do Brasil…A benção, todos os grandes sambistas do Brasil / Branco, preto, mulato…”.

Adentro a sala de Solange Cruz, presidente da escola de samba Mocidade Alegre, com o enredo 2016 definido. Será um tema afro, por isso, foi inevitável cumprimentá-la com essa canção. Sorridente, ela responde que essa é uma identidade para quem trabalha com o samba.

Sintetizando a história da Mocidade Alegre, havia três irmãos, pai e tios de Solange, naturais da cidade de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, e que viviam em São Paulo desde 1948.

Passados dois anos, eles e um grupo de homens, saíam pelas ruas da região central da cidade fantasiados de mulher.

Treze anos depois, entre os foliões, havia uma mulher no desfile e todos estavam fantasiados de palhaços pela avenida São João. O locutor de uma rádio, Evaristo Carvalho, disse:

“É um bloco muito alegre, um bloco de sujos, como existem muitos no Rio de Janeiro”. A partir desse dia surgiu o nome; Mocidade Alegre.

A escola tem quarenta e sete anos e dez campeonatos, sendo seis deles, conquistados sob a gestão de Solange Cruz.

A menina-mulher que acompanha a história da agremiação desde o seu nascimento passou por vários setores. Foi chefe das miudinhas, chefe de ala e de outros departamentos, diretora de comunicação, mestre de cerimônias, vice-presidente e presidente, há 13 anos.

Um dos produtos criados, antes de assumir a presidência, é o Grupo Miscigenação, mistura de dança e música, por meio da magia do Carnaval e do folclore brasileiro.

Para ela não existe fórmula mágica para os resultados. A base está no conceito escola de samba. Um ambiente formado pela massa e pela comunidade – ela é o foco central.

Administrar é um dos pontos, mas a prioridade está nas pessoas.

“Hoje há muitos presidentes que entendem de administração, mas não conhecem totalmente uma escola de samba” relembra.

A escolha dos enredos é sempre baseada para agradar ao seu público interno, sua gente. A prioridade é a escola, o ponto de partida, o material de trabalho. Para o próximo ano, a Mocidade Alegre desfilará “Ayo – a alma ancestral do samba”.

Trata-se de um gênero musical de origens africanas para comemorar o centenário do samba. Solange reitera:

“O samba tem muito suingue, cor da pele e faz arrepiar, assim como na Bahia onde há temas interessantes, mas já defendemos enredos que não eram afros e fomos muito felizes”.

Pioneira em enredos abstratos, a agremiação também teve excelentes resultados. E a própria presidente relembra que antigamente o Carnaval era mais histórico e cronológico. Buscava-se contar histórias na íntegra e os julgadores tinham formação em história, geografia, filosofia.

Essa mudança ocorreu com a chegada do subjetivo, do abstrato que tomou conta do Carnaval, inclusive no Rio de Janeiro. Ainda assim, a “Morada do Samba” busca temas para agradar seus componentes.

“Quem faz o Carnaval é a massa. Tem de mexer com a emoção, com a alegria. A comunidade é a facilitadora e o resultado do trabalho, principalmente para quem está na liderança”, reflete Solange.

A postura, diante do cargo, é bem pontual. Ela trabalha como a porta-voz e não a dona da escola.

Quando assumiu a Mocidade, a agremiação não tinha o sincronismo atual. Houve muito trabalho, pesquisa, deu ouvido à comunidade, o que gostavam ou queriam, e o resultado chegou logo no primeiro ano, com a conquista do campeonato.

Comento que o termo festa popular está em desuso, afinal, o segmento tornou-se um grande produto comercial. Ela faz um paralelo com o mundo externo.

“Vender algo que você acredita, o entusiasmo aumenta; mas ter um produto em mãos onde o ceticismo toma conta, pode ter certeza que não será vendido”.

Assim como outras escolas, as fantasias são comercializadas pela boutique virtual – e-commerce – para simpatizantes, veteranos ou novatos. Esse é outro momento primordial do público da escola. É ele quem influencia os recém-chegados. E Solange pontua:

“É mais fácil ter 300 pessoas que te abraçam e te convidam para festejar, do que uma com pouca experiência que não sabe nada”.

E por falar na questão monetária ela brinca que, embora a escola tenha a cor vermelha, ela prefere trabalhar no azul. Essa é uma de suas principais metas e reconhece que só a atinge com a ajuda de todos, sejam voluntários ou equipe contratada.

Os colaboradores tem grande satisfação em trabalhar na escola. A festa de lançamento do enredo, ocorrida em 25 de abril de 2015, foi uma surpresa para a presidente, que não participou de nenhum ensaio.

Ela frisa que confia em sua equipe, caso contrário, não teria sentido. A maioria é voluntária na escola e esse é um dos pontos observados, com peculiaridade, pela presidente.

“Graças a Deus conseguimos trabalhar de maneira humanitária. Acredito no trabalho por amor. Fico feliz em saber que a comunidade é presente. Para mim, é estranho assimilar uma pessoa batendo no peito por um pavilhão e amanhã está contemplando outro”.

Houve situações como essas na escola, porém, tratadas de forma amigável. A saída ocorreu pela porta da frente. Alguns conheceram outros lugares e perceberem que o melhor local é a sua própria casa. São reincidentes. Preservaram a experiência e voltaram à “Morada do Samba”. Solange fica muito feliz, claro!

É uma mulher habilidosa, comunicativa, vocabulário preciso – oratória e fonética especiais -, simpática e vaidosa. Em qualquer ambiente corporativo é possível encontrar líderes sisudas e enérgicas, com pouca feminilidade. Felizmente esse cenário muda a cada dia. Faço essas observações e, ela sorri animadamente.

“Gosto de mudar o figurino, o cabelo, os acessórios”, completa.

Está sempre arrumada – inclusive, a respeito de unhas e maquiagem – e com a voz ativa para organizar qualquer evento. Com esse perfil passou a levar seu conhecimento, de liderança e empreendedorismo, às empresas de todo o país.

Solange é referência em palestras motivacionais. No ano passado, convidada para um evento na região sul do Brasil, teve uma experiência bem interessante. Havia dez salas e, em uma delas, com 50 presidentes e diretores de RH, ela estava entre os convidados e notou a coincidência com o segmento escola de samba.

Um presidente delega as tarefas e espera o resultado, mas é necessário o acompanhamento, a vistoria e a participação. Na Mocidade as reuniões ocorrem duas vezes por semana para discutir ações, planejamento e também o resultado após os eventos feitos na quadra, ou em outros lugares.

Ainda, na comparação com o mundo empresarial, em que a competição é inerente em qualquer setor, a escola de samba Mocidade Alegre preserva a tradição dos sambistas e fundadores Juarez, Salvador e Carlos Cruz. Quando a escola ganha o Carnaval, imediatamente os componentes seguem para sua quadra e comemoram. Quando uma coirmã vence o campeonato, a escola cumprimenta, respeitosamente, o outro pavilhão em sua própria sede.

“Quando saúdo um presidente e seu pavilhão, estou me referindo à nação daquela escola. Perder faz parte, porque todos buscam o campeonato, isso é natural”, enfatiza Solange.

Vale lembrar que ela também teve uma função importante na Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, mas desligou-se para dedicar seu tempo integral a Mocidade. Ela parabeniza a gestão atual e comenta que há resultados, mas a divulgação foi tímida.

“O nome da Liga-SP é forte e reconhecido pelo segmento, isso é mantido com administração séria, linear e muita dedicação. Para mim, o maior valor de um ser humano e de todas as coisas é o nome. Isso é imprescindível”, acrescenta.

Seus atributos também contemplam a facilidade para falar ao microfone. E revela:

“Falo com o espelho e observo pastores – eles têm o dom da didática e são persuasivos”. Desde pequena era oradora da turma no colégio e na Mocidade Alegre aprimorou mais. Até o ano 2000 trabalhava com marketing e vendas. Batia todas as metas do mês – evidente quando tinha convicção. Certa vez, recebeu a incumbência de vender um material elétrico para unhas, que removeria cutículas instantaneamente. Avisou ao seu gerente que não acreditava no produto.

Tiro e queda. Não vendeu. Sr. Irvis e Roberto Siqueira – são chefes saudosistas, o último foi um “guru”. Era uma importadora que vendia máquinas para cortar cabelo. Virei referência entre meus colegas e todos pediam dicas.

Casada há 23 anos com Mestre Sombra, eles tiveram Carlos Augusto, o Carlinhos, filho de 15 anos, também chamado de Sombrinha. A mãe descreve o primogênito com os olhos brilhantes.

Ele é autodidata, independente, toca todos os instrumentos, joga futebol, estuda inglês, é líder nato e tem opinião formada para tudo, além disso, é uma pessoa muito querida. É capaz de sair em todas as escolas de samba. Os mestres de bateria gostam muito dele e na cidade maravilhosa até participa de um grupo formado por esses ritmistas.

“Carlinhos está sempre antenado. É um estudioso do Carnaval e gosta muito de sambas enredo e desfiles. O material menos assistido é o da Mocidade Alegre porque ele vivencia mais. Aprendeu a tocar os instrumentos sozinho, sem a interferência do pai”. Depois de tecer os elogios ao filho ela comenta, com muito carinho, sua atuação maternal. “Peço perdão ao meu filho, porque falho como mãe. Ele entende e até brinca com isso, mas estamos sempre juntos, inclusive porque o Sombra é pai e mãe, em muitas vezes”.

Mulher, mãe, líder, formadora de opinião, Solange Cruz é católica, devota de Nossa Senhora, gosta de ir ao cinema, gosta de cozinhar e receber seus amigos.

Dinâmica e assertiva nas decisões, sua trajetória é composta de vitórias que a conduzem para celebrar a vida!

 

20/03/2015 00h03

Murilo Lobo: Superação de um jovem talento do Carnaval

Aurora Seles

Ah, assistimos mais um espetáculo! O último Carnaval foi simplesmente lindo. Daqui a pouco tem mais. Aproveitarei o momento para contar, em linhas leves, a trajetória de um amigo querido – exemplo de superação.

Nosso papo rolou numa sorveteria bem planejada. Ambiente convidativo com algumas taças, transbordando de massas geladas, e também xícaras. O projeto inteiramente arquitetado por ele. Sim! Murilo Lobo, 49, estudou canto, é arquiteto, cenógrafo, carnavalesco e apaixonado pela vida.

Suas primeiras palavras ecoam com o trecho do Samba da Benção, de Vinicius de Moraes: “Porque o samba nasceu lá na Bahia / E se hoje ele é branco na poesia / Se hoje ele é branco na poesia / Ele é negro demais no coração”. A pele clara transcende a adoração pela cultura afro-brasileira. Filho de pai seresteiro – tocava violão, cantava MPB e samba – ao lado da mãe, ambos curtiam os bailes de Carnaval, no Esporte Clube Banespa, e confeccionavam as próprias fantasias para animar o bloco do salão. A animação perdurava a noite inteira e, durante o dia, os figurinos eram readaptados às crianças.

Nesse clima o jovem Murilo passou a criar as peças dos amigos. Também era adepto ao canto e até hoje guarda gravações de quando tinha apenas seis anos, cantando samba de breque, preferência voltada ao samba e jamais à música americana.

Aos 15 anos, sozinho, assistiu aos desfiles na Avenida Tiradentes. Era o primeiro a chegar e garantir um espaço bacana. Ele não torcia por nenhuma escola de samba. Absolutamente aberto ao espetáculo, tudo o comovia e extasiava. Uma paixão natural que crescia a cada instante. Sua sensatez permitia olhar as criações, admirá-las e aprender, sem desdenhar qualquer trabalho.

Em 1988 viajou ao Rio de Janeiro e sentiu a emoção, ao vivo, do espetáculo apresentado na Sapucaí. Conferiu tudo com muita admiração, em especial, a apoteose da Vila Isabel, posteriormente campeã, com o enredo “Kizomba, a festa da raça”.

É kardecista e acompanha as atividades em um núcleo espírita. Nesse lugar sua vida migrou ao segmento Carnaval. Era um belo dia de 2007 e um amigo o convidou a desfilar na Rosas de Ouro. A ala “Canto Forte”, na época com débito de R$ 30 mil. Pediram autorização da presidente para fazer uma fantasia mais simples. Com essa venda, quitaram a dívida e conseguiram confeccionar os figurinos daquele ano. No dia da grande festa, ajudava a amarrar as fantasias, organizava as filas, corria de um lado a outro. Adrenalina total.

Em 2006, o enredo: “Diáspora africana, um crime contra a raça humana”, trouxe mais envolvimento com a agremiação. No ano seguinte passou a ser chefe de ala e conheceu a escola com mais detalhes. Visitava os bastidores. Paralelo a isso, sempre mandava comentários ao diretor musical Osmar Costa. Este gostava das análises e convidou Murilo a fazer parte da “Comissão Julgadora de Samba de Enredo”, ao lado dos diretores da escola. Oportunidade de opinar e trocar ideias complexas com os participantes.

Surge a chance irrecusável, por meio do carnavalesco Jorge Freitas, para escrever a quatro mãos o enredo “Cacau: um grão precioso que virou chocolate, e sem dúvida se transformou no melhor presente” – campeão de 2010. A priori, seu contato com Freitas era apenas como chefe de ala. Relação conflituosa, mas felizmente viraram grandes amigos.

Em 2011 recebe das mãos do amigo Freitas, a incumbência de desenvolver um enredo na cidade de Santos à escola Sangue Jovem. O tema enaltecia reis africanos: Mandela, Martin Luther King e o rei Pelé – os três arautos da paz. Outra experiência incrível e ao mesmo tempo dolorosa. Afinal, são realidades completamente distintas, verba reduzida e a distância da grande metrópole.

A agremiação – oriunda de torcida de futebol – diferenciava-se como organização de escola e havia poucas pessoas no barracão. Mesmo assim, foi um belo desfile. Horas depois, quando voltava – de ônibus – para São Paulo, Murilo recebe a triste notícia do acidente, com três vítimas fatais – eletrocutadas próximas ao local do evento.

Esse episódio não estava sob a responsabilidade da escola e sim da segurança pública. Abalado, ele titubeou, pois estava começando a desenvolver seu trabalho. Deixar de ganhar o Carnaval em função de alegorias, fantasias, evolução, qualquer quesito é um fator, mas perder vidas é imensurável. Difícil comparar.

E se não bastasse sua dedicação ao Carnaval, em 2012 outro susto, diagnosticado com câncer de tireoide. Perguntava-se por que havia passado por isso. Superou e encontrou a resposta na alegria de viver. Para ele, a fragilidade é econômica e explica que não passou a vida com intuito de investir na velhice, mas sim nos sonhos. Os dias passaram e refletiu “as oportunidades surgem, muitas vezes, para levar luz às pessoas e aos projetos que nos envolvemos”.

Trabalhou muito tempo voluntariamente. Com a remuneração, a responsabilidade e o compromisso aumentaram, porque a paixão está atrelada a essa característica. Novamente o amigo e carnavalesco da Rosas de Ouro oferece outro desafio. Desta vez seria desenvolver um trabalho à escola do Grupo de Acesso, em São Paulo: a Unidos do Peruche.

No início ele acreditava que seria semelhante ao projeto feito no litoral. Criar o enredo e fazer algumas visitas técnicas. Engano! A escola carecia da presença do carnavalesco e estava desde 2010 no mesmo grupo. Com a direção nova, tudo foi literalmente revisto. A proposta era um enredo afro.

Em casa questionou a si mesmo: o que essa comunidade precisa ouvir? Pesquisou a lenda de um menino – desenho franco-suíço (originalmente Kiriku e a Feiticeira). Título posteriormente substituído para “Karabá e a lenda do menino de coração de ouro”. Narrativa de uma história singela sobre um menino que nasceu falando. A tribo era oprimida por uma poderosa feiticeira e ele perguntava qual o motivo daquela maldade. A busca desse menino, em ajudar sua aldeia, fundamentava-se na busca da verdade. Pelas entranhas da terra, o menino fez amizades com os animais e finalmente chegou ao cupinzeiro – onde morava o grande sábio. Esse local só era aberto a quem fosse digno e o menino de ouro possuía essa peculiaridade.

O sábio explicava que a feiticeira não era absolutamente malvada. Quando criança havia sofrido uma violência; em suas costas foi cravado um espinho para que ela dotasse de poderes malignos. Ela sentiu muita dor e pensava que nunca mais se livraria do mal. O menino tira o espinho com os próprios dentes e a vida da feiticeira renasce. Tudo se renova. Como agradecimento ele é beijado e vira um grande guerreiro.

Essa é a trama do enredo, a transformação. Naquele instante Murilo encontrara o tema à “Filial do Samba”. Ela precisava tirar o espinho de suas costas. Para isso, a dedicação dos componentes, com seus corações de ouro, seria fundamental. O trabalho coletivo fez a transformação. Um dos trechos do samba: “Quem tem coragem e na fé vai atrás do que quer, é guerreiro! Dignidade traz sabedoria para reconhecer na vida o sentido verdadeira”.

Ele acredita que a função dos criadores de Carnaval é encontrar nas comunidades o que ela quer e pode dizer. O trabalho, feito em conjunto, trouxe o resultado. Pela primeira vez conferiu a criação inteira na avenida, sob uma forte chuva. Humildemente reitera a ajuda dos amigos e canta outra parte do samba: “Missão cumprida, olha aí a nossa tribo na avenida”.

A conversa segue, com entusiasmo e paródias. Trocadilho com o enredo “Mirei no que vi e acertei no que não vi. O menino pequeno se tornou grande guerreiro. A jornada é de todos. Para sermos grandes na vida temos de começar com pouco”.

Lidou com situações curiosas, por exemplo, na comissão de frente trouxe borboletas. Espécie que deixa para trás não apenas um simples casulo, mas a forma de ser e transformar-se em algo melhor. Muito contestado, insistiu. A escola abriu o desfile com bailarinas de ponta – trabalho feito pela coreógrafa Paula Gasparini. Frisa que Carnaval é feito de bom gosto e que alguns visuais são surpreendentes e nem por isso, tão caros. Por exemplo, o cupinzeiro foi forrado com boias de piscina (material reciclado – espaguetes cortados em 20 mil pedaços) com pastilhas pratas aplicadas.

O compromisso emocional contribuiu para a permanência na escola, já com o enredo 2016: “Ponha um pouco de amor numa cadência e vai ver que ninguém no mundo vence a beleza que tem o samba…100 anos de samba, minha vida, minha raiz”. A data do centenário será em 1 de novembro do próximo ano (fonte: Enciclopédia da Música Brasileira, com a partitura do registro de Pelo Telefone, composição de Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e do jornalista Mauro de Almeida). Enredo musical, uma festa de todos. Com outro verso cantarolado, desta vez de Caetano Veloso: “o samba é o pai do prazer, o samba é o filho da dor, o grande poder transformador”, finalizamos o bate-papo com sua definição sobre Carnaval.

“A expressão mais profunda de alegria e paixão que a gente tem nesse país. É uma ópera ao ar livre. As escolas precisam encontrar meios para viabilizar o espetáculo, não necessariamente pelo luxo, mas pela emoção do componente. São as pessoas que fazem a diferença”

 

13/02/2015 00h02

O ritmo da animação pede passagem com tecnologia

Aurora Seles

Concentrar, organizar e manter mais de duas mil pessoas num percurso de 530 metros é uma tarefa peculiar. Somado a isso, muita energia, alegria e claro: comunicação!

Daqui a pouco serão abertos os portões da passarela do samba em São Paulo, o sambódromo do Anhembi , Polo Cultural e Esportivo Grande Otelo. No Grupo Especial serão 14 escolas de samba e no acesso 8 agremiações. Uma das maiores festas do mundo em que o público, canta, dança, aplaude, sorri e transborda de emoção.

Quando criança ficava fascinada com o agito, a correria e até os gritos nos bastidores do Carnaval. Naquela época o “gogó” ditava as regras. E quando soava o apito, todo mundo ficava em estado de alerta. Fogos de artifício também eram recursos para despertar a atenção dos componentes. E finalmente, o som da sirene para avisar que o desfile começaria.

Parece que foi ontem, mas o tempo voou.

Há duas semanas estive na cabine do SRZD – preparada especialmente à cobertura – e conferi aos ensaios técnicos. Observei o cuidado das escolas de samba com a comunicação.

Os dirigentes usavam fones de ouvido, microfone e rádio. Outro item foi o metrônomo, utilizado para marcar o tempo do compasso (indicado pelo piscar de uma luz LED) e por um som eletrônico. Esse acessório acompanha o ritmo das baterias e deixa o desfile mais homogêneo na questão sonora, onde o tempo médio dessa ala gira em torno de 145 batidas por minuto. Em suma, é um relógio que mede o tempo musical e os compassos.

As escolas também traziam outra tecnologia: um veículo aéreo não tripulado, também chamado UAV (Unmanned Aerial Vehicle) e mais conhecido como drone (zangão, em inglês). Equipamento resistente a trabalhos pesados e ambientes diversos. Essa pequena aeronave, que não necessita de pilotos, fazia imagens panorâmicas dos desfiles técnicos. Sem dúvida, uma alternativa sensacional para registrar o trabalho complexo das escolas de samba.

A equipe a qual eu trabalhava –SRZD –, numa estrutura de alguns metros quadrados, abrigava quase vinte profissionais que administravam, ao vivo, a transmissão. Houve também a visita de muitos artistas e entrevistas. Vídeos e fotos publicados em tempo real. O trabalho estava sob a direção do querido Raul Machado.

Vivemos a era digital. Certamente a tecnologia da informação contribui para o crescimento dos comunicadores e, no Carnaval, essa interação está no ranking das prioridades. Mais um ano em que muitos foliões, seja por meio da arquibancada, da web ou de um televisor, conferirão um espetáculo mágico de confetes, serpentinas, tecnologia, brilho, cores, luz e sincronismo dos componentes. Na passarela do samba uma infinidade de pessoas percorrerão um pouco mais de meio quilômetro. Serão 65 minutos de festa para cada escola.

A comunicação estará presente em todos os quesitos. Confira esse ziriguidum e viva o Carnaval 2015!

 

15/01/2015 13h45

Comunicação: crise para o contexto da escola de samba

Aurora Seles

Trabalhar no segmento da comunicação é, sem dúvida, uma das áreas mais atraentes. Não há rotina e em várias ocasiões é preciso mudar as estratégias em cima do “deadline”.

Nos últimos meses participei de nove projetos institucionais e seis foram implantados. Quanto aos trabalhos pendentes, o motivo é exatamente o tema desse conteúdo: gestão de crises. Uma tensão corporativa pode durar três dias, três semanas ou três meses.

Felizmente já estamos na fase de reorganização. Antes de atuar no Carnaval, frequentava, ao lado de vários amigos, ensaios das escolas de samba. No dia de retirarmos as fantasias notamos o presidente com três aparelhos celulares em suas mãos.

Desligava uma chamada e atendia outra, sem cessar. Posteriormente ele comentou com o nosso grupo o motivo de tantos telefonemas. Um funcionário havia caído de uma alegoria e estava muito machucado. A imprensa queria saber detalhes, mas o dirigente aguardava informações do hospital.

Um de meus amigos comentou: você precisa de uma assessora de imprensa. Trocamos cartões. No ano seguinte estava na quadra, mas desta vez não era foliã.

Desde então são inúmeras situações presenciadas e administradas nesse setor. Um dos cases marcantes foi receber uma nota do departamento que controla o uso de imóveis e atua na prevenção e fiscalização de instalações e sistemas de segurança de edificações, em São Paulo.

Na mesma semana uma boate, em Santa Maria-RS, vitimou quase duzentas e cinquenta pessoas e vários estabelecimentos foram monitorados. A escola em que assessorava recebeu uma equipe de fiscais que solicitou a apresentação, em 24 horas, de toda a documentação que atestava a segurança da quadra. Isso tudo ocorreu uma semana antes de a escola desfilar no sambódromo.

A situação era delicada e os dirigentes ficaram com os humores alterados. Felizmente pela confiança adquirida tive, a incumbência de gerenciar o momento com a imprensa e os órgãos responsáveis.

Advogados, engenheiros, técnicos, comunidade e todos os afins. Fazer o media training para que a principal dirigente falasse com os jornalistas foi um momento especial. Choro, revolta, punhos cerrados e insegurança. Tudo fazia parte do cenário. Cerca de meia hora depois convocamos a imprensa e a fala – emocionada – transmitiu credibilidade e confiança ao principal parceiro da agremiação: seu público!

Nota emitida aos órgãos de comunicação, aos canais da escola e aos patrocinadores. A escola teve ainda dois ensaios na quadra e recebeu uma excelente classificação no desfile oficial. A garra dos componentes fidelizou ainda mais a história daquela entidade. Após a crise, vários pontos foram reavaliados e claro, o ensinamento do mestre dos magos contribuiu para minimizar o problema: “a verdade os libertará”.

Muitas vezes os grandes desastres e escândalos nascem de pequenos deslizes, portanto, a melhor maneira de lidar com uma crise é por meio da prevenção. Estudar e apurar os possíveis pontos críticos de uma empresa; observar a postura dos porta-vozes – excepcionalmente aqueles que têm medo -, até porque, esse é um sentimento que normalmente paralisa os envolvidos e não se eximir da culpa são providências essenciais ao gerenciamento do fato.

O desempenho manterá a credibilidade da empresa, afinal, comunicação não é o que você diz, mas o que o outro entende. O clichê “fazer do limão uma limonada” reitera: uma crise pode ser sinônimo de uma grande oportunidade.

 

06/08/2014 00h40

Comunicação: uma ferramenta universal

Desde os primórdios, até a atualidade, os meios de conversação contribuem aos diversos segmentos
Aurora Seles

Recentemente li um artigo de Sidney Rezende, com excelente análise, sobre o ofício de ser jornalista. Refleti profundamente sobre a importância da comunicação.

A meu ver, trata-se de uma das maiores ferramentas para promover a simbiose do conhecimento. Ser jornalista, por exemplo, não é ter a ilusão de ficar atrás de uma bancada. A paixão pelo segmento é complexa, porque adquirimos técnicas de melhorar nosso diálogo e principalmente, levar informação.

Tudo começou na era pré-histórica. O homem observou a necessidade de manifestar-se desde que passou a viver em sociedade, fosse para alertar sobre alguma coisa, expressar sua cultura ou sentimento.

No período Paleolítico e Mesolítico (500.000 A.C. a 18.000 A.C.) o homem dominava a natureza, fabricava utensílios, usava trajes para conter o frio, usava o fogo e também desenvolvia a linguagem com intuito de se exprimir.

Desta forma, começa-se o que hoje conhecemos como pinturas rupestres, ou seja, desenhos feitos em cavernas ou pedras com a ideia de expressar-se. Logo depois, as habitações passaram de cavernas a casas construídas pelo próprio homem, as roupas eram produzidas por teares e a comunicação passava a ser expressa em ossos, pedras e madeiras.

A transição da Pré-história ocorre no final da Idade dos Metais (por volta de 4.000 A.C.), daí o surgimento da escrita na Mesopotâmia e no Egito.

Desde então essa ferramenta cresceu cotidianamente. O primeiro exemplar de um jornal é de 59 A.C., em Roma. No rádio, consta a primeira transmissão em 1900; a televisão surge em 1924. O processo é realmente evolutivo: desenvolvimento da pré-escrita, da escrita, do papel, das impressões manuais e das mecânicas.

Estamos na era digital – da tecnologia e informação – e podemos dividir nossos pensamentos e sentimentos ao redor do mundo. A informação alcançou distâncias geográficas e culturais.

A comunicação é um processo que circunda a troca conhecimento. Muitas vezes são utilizados os sistemas simbólicos a este fim.

Há uma infinidade de maneiras para promover a informação: duas pessoas durante uma conversa face a face, ou através de gestos com as mãos, mensagens enviadas pela internet, a fala e a escrita possibilitam interagir com o mundo.

Com o uso da semiótica – teoria geral de todas as linguagens e de todos os sistemas de significação – o ato de comunicar-se é ainda maior.

Podemos materializar o pensamento através de símbolos. Este processo, que abrange as redes colaborativas e os sistemas híbridos, contribui para as comunicações de massa, pessoal e horizontal.

Chacrinha, o velho guerreiro, alardeava: “Quem não se comunica se trumbica”. Absolutamente! A comunicação é uma atividade educativa. Ela circunda a troca de experiência entre pessoas de gerações diferentes, evitando-se assim que os grupos sociais retornem ao primitismo.

Sem dúvida, o assunto oferece um gancho sobre a importância da comunicação num desfile de Carnaval.

Desde a ideia do enredo até a concepção da totalidade das alas, a interação é simultânea.

Carnavalesco, diretorias gerais de uma agremiação e também das alas, componentes.

Da concentração até o fechamento dos portões, tudo é sincronizado. O tempo cronometrado.

A demanda envolve muitas pessoas – e faixas etárias. Claro! Da velha-guarda à ala das crianças, não há exceção.

Todos têm sua importância na passarela do samba. Imaginem um setor perder a conexão com os outros setores.

Ufa! Vale lembrar que a criação do enredo é – na maioria das vezes – a interpretação de um fato histórico, de uma homenagem, de uma recordação.

Há pouco mais de uma hora para retratar o tema. O resultado positivo, do trabalho que dura o ano inteiro, ocorre excepcionalmente pela boa comunicação.

As atividades incluem festas, ensaios, shows, coreografias e muito diálogo. Imprevistos são solucionados rapidamente quando existem os chamados “planos B”, mas esse é um assunto de gerenciamento de crises. Confira no próximo artigo!

 

 

10/07/2014 00h12

Cadência do Futebol

Aurora Seles

O futebol é uma das marcas do nosso querido país. Há várias pérolas na modalidade e Mané Garincha (1933-1983) está entre as joias.

Na década de 70 dançava seus dribles nos adversários e fazia muita finta. O termo – de origem italiana – significa ato de fingir, do particípio passado do verbo “fingir”. A finalidade é fazer com que o oponente acredite em uma ação, que não acontecerá.

A finta é uma jogada individual que existe praticamente em todos os esportes coletivos. No caso do futebol, o termo mais usado é o “drible”.

A rapidez e perfeição desse movimento ficou conhecida nos pés do grande Garrincha. Suas pernas eram tortas e driblava quase com frequência para o mesmo lado.

Será sempre lembrado como um dos heróis da conquista da Copa do Mundo em 1958 e, principalmente, da Copa seguinte.

Em 1968 casou-se com Elza Soares, uma das maiores musas da música popular brasileira. Cantora de jazz, soul e com a voz especial – entonação grave, muito peculiar. A soada rouca e vibrante tornou-se sua marca registrada. Após terminar o segundo LP, “A Bossa Negra”, Elza esteve no Chile para representar o Brasil na Copa do Mundo de 1962. O estilo exorbitante fascinou o público.

Elza tornou-se popular com as canções “Se Acaso Você Chegasse”, “Mas Que Nada”, entre outros sambas de sucesso. Foi a primeira mulher brasileira a puxar um samba enredo. Passou pelo Salgueiro, Mocidade e Cubango. Recebeu indicações ao Grammy Awards e, em 2000 recebeu o prêmio como “Melhor Cantora do Milênio” pela BBC em Londres.

No ano 2007 cantou o Hino Nacional Brasileiro a cappella na Cerimônia de Abertura dos Jogos Panamericanos Rio 2007. Seu último álbum, lançado em 2004, “Vivo Feliz”, traz a mistura de diversos ritmos que vai do samba à música eletrônica.

De um lado, o drible nos pés do anjo de pernas tortas. Do outro, o som na voz rouca da linda negra. Sem dúvida uma união que referencia gerações em várias modalidades. Seja para quem gosta de ver a bola correr nos grandes campos ou ouvir as belas interpretações da música popular brasileira.

 

04/06/2014 12h52

Música para o coração

Aurora Seles

No início da década de 70 morria o grande Pixinguinha (1897-1973). Chamava- se Alfredo da Rocha Viana que, durante a vida foi flautista, saxofonista, compositor e arranjador brasileiro.

Uma de suas canções mais marcantes é “Carinhoso”. Desde a criação consistiu interpretações de Elis Regina, Paulinho da Viola, Caetano Veloso, Maria Bethânia e muitos outros nomes da nossa música.

Tema de novela, jingle publicitário e muitas adaptações, “Carinhoso” é sem dúvida, uma das obras mais importantes da música popular brasileira. Foi composta entre 1916 e 1917 por Pixinguinha e posteriormente recebeu letra de João de Barro (Braguinha), sendo gravada com grande sucesso por Orlando Silva.

Desde o início de 2014 artistas, de diversos segmentos, morreram em decorrência de problemas cardíacos. A lembrança é propositalmente aplicada para que o leitor reflita o primeiro verso da obra de Pixinguinha:


Meu coração, não sei por quê

Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo,
Mas mesmo assim foges de mim

O uso do gerúndio caiu como uma luva nas metáforas: os olhos ficam sorrindo e seguindo alguém que foge. Ah, nessa hora o coração bate feliz!

Arrisco em afirmar que realmente o coração ri, muito mais do que chora. Esse órgão carrega todo o sentimento e pulsa de alegria quando emana carinho. Fica mais carinhoso.

Somos privilegiados e acarinhados por obras dessa proporção. E como disse o grande jornalista Sergio Cabral*: “Músicos, musicólogos e amantes de nossa música podem até discordar de uma coisa ou outra. Mas, se há um nome acima das preferências individuais, este é Pixinguinha.”

Ele era também uma das principais figuras das rodas de choro na casa de Tia Ciata, onde o choro acontecia na sala e o samba no quintal. Num desses encontros nasceu o famoso Pelo telefone, de Donga e Mauro de Almeida, considerado o primeiro samba gravado.

No dia 17 de fevereiro de 1973 – data em que seria o padrinho de uma criança – na IgrejaNossa Senhora da Paz, em Ipanema/RJ, Pixinguinha sofreu um enfarte definitivo. A Banda de Ipanema, que fazia naquele momento um dos seus mais animados desfiles, rompeu-se na hora, com a chegada da notícia. Os corações não conseguiam sorrir.

Daqui a pouco a composição completará um centenário. Há peças tão genuínas que jamais envelhecem. E é fato: Pixinguinha é gosto universal para todas as idades.

* Autor de Pixinguinha, Vida e Obra (1977)